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Poetisa Maria Ilza Bezerra – Síntese biográfica

Maria Ilza Bezerra (22/12/1959)

Maria Ilza Bezerra nasceu no dia 22 de dezembro de 1959, na cidade de Fronteiras, Piauí. Filha de costureira, foi alfabetizada pela mãe, e ao aprender a ler, aproximou-se da literatura de cordel, mergulhando em leituras diárias, as quais fazia para o deleite de seus parentes e vizinhos idosos, lendo os mais variados romances de cordel. Entre eles:Iracema, de Alfredo Pessoa de Lima, O Pavão Misterioso, de José Camelo de Melo Resende e O Macaco Misterioso, de João José da Silva, entre outros. Foi através do gosto pela literatura, que Maria Ilza Bezerra conheceu as obras de William Shakespeare, de quem adaptaria, depois, para o cordel, a tragédia romântica Romeu e Julieta, lançando-o pela Editora Luzeiro. A autora de Romeu e Julieta em cordel é servidora pública, de uma vasta experiência como professora do ensino fundamental, médio e superior, graduada em Letras, é também especialista em Literatura Brasileira, Ensino, Comunicação e Cultura.

Haurélio (2011) relata que a cordelista Ilza Bezerra, teve um trajeto itinerante, reflexo de seu percurso estudantil, nesse sentido o autor destaca, entre essa travessia, a sua estada nas cidades de Fronteiras, Piauí, Teresina, Piauí, Campos Sales, Ceará, Picos, Piauí, Araripina, Pernambuco e Maceió, Alagoas. Em  Maceió, Alagoas,  morou 13 anos, retornando à sua cidade natal no ano de 2000 e após cinco anos, partiu para a capital do Piauí,  onde reside atualmente.

Além de Romeu e Julieta, Maria Ilza Bezerra publicou: Tudo é um momento, em 1998; Uma fada na Floresta, em 1999; Auto do Padre Cícero, em 2003; Cidadania Ferida, em 2005; Nas garras do gavião, 2009, que trata-se de uma história de fictícia que tem como cenário a cidade de Fronteiras, esse folheto foi editado pela Editora Tupynanquim de Fortaleza, Ceará, entre outros.

Para a cordelista Maria Ilza, o cordel é uma espécie de seu porta-voz, histórias que eternizam o passado, embalam o presente e contemplam o futuro (BEZERRA, 2007).

Catunda (2013) reafirma que Ilza Bezerra utiliza o cordel como seu porta-voz, sendo premiada com “A Produção Poética – Projeto Vídeo Escola”, em Maceió, Alagoas, no ano de 1998. Em sua trajetória literária, participou também do Concurso Nacional de Literatura do Sindicato dos Escritores de Alagoas (1999).

Outra obra de Ilza Bezerra é: A verdadeira História de Maria das Tiras, cordel publicado pela editora Tupynanquim.

Maria das Tiras: uma plural mulher

Com aquele ar tão cansado

Pelas ruas vai pensando

Sem temer nenhum perigo

Pra muitos sai semeando

O seu discurso espontâneo

De repente vai cantando:

 – Que acontecerá comigo

Vivendo neste lugar?

 Sei que sou uma cidadã

Mas tropeço ao caminhar

Pois tenho fome de tudo

E estou sempre a lamentar!

Imagine este meu jeito

Assusta a humanidade

Pois venho lá do sertão

Pra conquistar a cidade

Sou chamada de coitada

No país da diversidade!

Eu tenho a cara da seca

Pareço uma vagabunda

Se minha barriga ronca

Sou nojenta, sou imunda

Mas sou vítima do descaso

Levo muito pé na bunda!

Você pode perceber

Eu sou mulher penitente

Vivo numa sociedade

Que age impiedosamente

Mas tenho a minha cultura

Eu sou migrante, sou gente!

Eu sou uma mulher que ri

Sou uma pobre que chora

Sou uma velha que ama

Sou uma cidadã que implora

Quero apenas ser feliz

Quero meu respeito agora!

Quero fazer minha história

Quero amor a vida inteira

Chega de tanto desprezo

Por ser sem eira, nem beira

Quero ter o meu cantinho

Em um lugar sem fronteira.

Que lugar é este aqui,

Que o voto se negocia?

 Pois nossa dignidade

Passa a ser mercadoria

Sou uma velha sertaneja,

E tenho soberania!

Que lugar é este aqui,

Que não valoriza a vida?

Eu tenho fome de arte

Não apenas de comida

Ah, como é duro viver

Com a cidadania ferida!

Eu sou uma mulher sedenta

Vivo num mundo perverso

Não tenho casa, nem abrigo

E o meu relento é verso

Eu quero ter o meu espaço

E conquistar o universo!

Eu não sou nenhuma louca

Sou um pouco diferente

Tenho a minha identidade

Tenho um jeito persistente

E nessa minha linguagem

Eu posso gritar: SOU GENTE!

Sou nada pra burguesia

Eu passo por imbecil

Meu valor é mascarado

Mas sou de um povo varonil

E posso mostrar pra o mundo

Esta face do Brasil!

Ah! Esta voz não se cala

Parece até uma miragem

Mas esta mulher humilde

Demonstra muita coragem

O sertão está no sangue!

 Mesmo com essa roupagem…

FONTES CONSULTADAS

BEZERRA, Claudia. Professora da rede estadual lança Romeu e Julieta em cordel. Disponível em: < http://www.piaui2008.pi.gov.br/materia.php?id=23893>. Acesso em: 15 set. 2014.

BEZERRA, Maria Ilza. Maria das Tiras: uma plural mulher.  In: MUNDO Jovem: um Jornal de Idéias. Disponível em: <http://www.mundojovem.com.br/poesias-poemas/cordel/maria-das-tiras-uma-plural-mulher>. Acesso em: 05 nov. 2014.

CATUNDA, Dalinha. As mulheres do cordel: versos de Ilza Bezerra. In: CORDEL de saia. Disponível em: <http://cordeldesaia.blogspot.com.br/2013_10_01_archive.html>. Acesso em: 15 set. 2014.

HAURELIO, Marco. Dicionário básico de autores de cordel. In: CORDEL Atemporal. Disponível em: <http://marcohaurelio. blogspot.com.br/2011/06/dicionario-basico-de-autores-de-cordel.html>. Acesso em: 04 nov. 2014.

Poeta Vicente Vitorino de Melo – Síntese biográfica

Vicente Vitorino de Melo (16/11/1917)

O cordelista, cantador e astrólogo popular, Vicente Vitorino de Melo, nasceu no agreste pernambucano, na conhecida Princesa do Capibaribe, em Limoeiro, Pernambuco, no dia 16 de novembro de 1917 e radicou-se em outro município do Estado, Caruaru.

Vicente foi cantador de viola até os 33 anos de idade (1950), passando a dedicar-se às três outras tradições populares do nordeste: o cordel, a astrologia popular e o almanaque. Em 1952, em Caruaru, lançou o Almanaque do Nordeste, publicação anual, impresso nas folheterias de cordel, visando os agricultores e chegando aos seus leitores por meio da feira e do rádio.

Em 1948, publicou seu primeiro folheto cujo tema foi Frei Damião: O exemplo da asa branca profetizado por Frei Damião. O tema está presente em mais dois cordéis de Vicente: Exemplo da crente que profanou frei Damião Horrores que a Asa Branca traz profetizado pelo Frade Frei Damião (publicado em 1948, em Caruaru, Pernambuco e reeditado no ano de 1954, em Campina Grande, ParaíbaNeste trabalho, o poeta atribui ao baião Asa Branca (1947), de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, a causa de muitos desastres naturais, por entender que a canção faz apologia ao inferno e a satanás (HAURÉLIO, 2011; NÓBREGA, 2012).

Quando diz que na fornalha

tem um pé de plantação

será da árvore maldita

do fruto da maldição

deste fruto que se colhe

o sabor da perdição.

O Missionário dos Sertões, Frei Damião de Bozzano, neste poema, recomenda:

Aviso a todos os cristãos

Em nome de Deus amado

Que não cante a Asa Branca

Deixe as modas e o ditado

Quem não ouvir meus conselhos

De Deus será castigado.

Outro trabalho conhecido é o notável folheto Discussão de um crente com um cachaceiro, considerado um dos melhores do gênero, cuja edição foi celebrada com o editor Giuseppi Baccário, da Casa das Crianças de Olinda (MESTRE, 2011).

Você já leu alguns livros

De fabricar aguardente?

Pinga-fogo, Canta-galo…

– Deus me livre! – Disse o crente,

De eu ler certas misérias

Disse o bêbado: – São matérias

De conteúdo excelente!

Este poeta de bancada publicou pela editora popular cearense, A TUPYNANQUIM: O príncipe Alípio – ou o julgamento de Satanás.

Vicente Vitorino de Melo já é falecido.

FONTES CONSULTADAS

ALMANAQUE astrológico I. In: ESPAÇO astrológico. [S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http://espacoastrologico.org/ almanaques-astrologicos/>. Acesso em: 25 de nov. 2014.

ALMANAQUE do Nordeste 2015 traz de previsões do tempo ao resgate da cultura popular na autoria de Genilvaldo Silva. [S.l.: s.n., 2014]. In: INFORMA Bahia. Disponível em: <http://www.informabahia.com.br/almanaque-nordeste-2015-traz-de-previsoes-tempo-ao-resgate-da-cultura-popular-na-autoria-de-genilvaldo-silva/>;. Acesso em: 25 nov. 2014.

HAURÉLIO, Marco. Relembrando o Rei do Baião.  2011. In: CORDEL Atemporal: espaço dedicado à literatura de cordel e à divulgação da cultura popular brasileira. [S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http://marcohaurelio.blogspot.com.br/2011/08 /relembrando-o-rei-do-baiao.html>. Acesso em: 25 nov. 2014.

LUIZ, André. Almanaque do nordeste resiste à evolução. 2012 In: AL Notícias.  [S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http://www.alnoticiasichu.com/?p=22371>.  Acesso em: 25 nov. 2014.

MESTRES do Cordel – VI: Vicente Vitorino de Melo. 2011. In: ACORDA Cordel. [S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http://acordacordel.blogspot.com.br/2011/06/mestres-do-cordel-v_28.html>. Acesso em: 25 nov. 2014.

NÓBREGA, Xico. Luiz Gonzaga inspira a literatura popular desde a década de 1950. 2012. In: LUZ de fifó. [S.l.: s.n., 20?].  Disponível em: <http://luzdefifo.blogspot.com.br/2012_05_01_ archive.html>;. Acesso em: 25 nov. 2014.

VIANA, Arievaldo. O grande astrólogo Vicente Vitorino de Melo. 2011. In: FAMOSOS, política e esporte. [S.l.: s.n., 20?].

_____. Vicente Vitorino de Melo. 2011. In: CORDEL Atemporal. [S.l.: s.n., 20?].

VICENTE Vitorino de Melo. In: O NORDESTE: Enciclopédia Nordeste. [S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http://enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Vicente+Vitorino+de+Melo>. Acesso em: 12 nov. 2014.

Poeta Manoel Pereira Sobrinho – Síntese biográfica

Manoel Pereira Sobrinho (06/08/1918)

Manoel Pereira Sobrinho, conhecido nos acrósticos como Pereira, Manoel Pereira ou apenas Manoel, nasceu no dia 6 de agosto de 1918 no distrito de Passagem, município de Patos de Espinhara, sertão paraibano.

Entre 1948 e 1956, ele foi editor na Rainha da Borborema (Campina Grande, Paraíba), já intitulado, nesse período, um poeta popular. Em 1948, Manoel Pereira funda a Casa Pereira, sua própria editora de folhetos, que funcionou ativamente até o ano de 1956 (RAMOS, [20–?]).

Em meados da década dos anos 60, final dos anos 50, o poeta mudou-se para São Paulo, onde firmou vínculo com a Editora Prelúdio (antecessora da Editora Luzeiro), para a qual reescreveu romances de Leandro e de outros autores famosos, conservando os títulos originais (HAURÉLIO, 2011).

Em sua vasta produção de folhetos, destacam-se os romances, além dos cordéis de cunho político. Sua forma própria de se expressar, demonstrando de fato suas convicções e pensamentos, gerava, muitas vezes, antipatia de alguns leitores, tornando-se malquisto para algumas pessoas.   Sua produção pode ser percebida em dois pilares: o primeiro, em um menor quantitativo, corresponde aos folhetos políticos, cujo teor é permeado de ataques a figuras importantes da época, como o governador da Paraíba (Dr. Promessa). No contexto dessa produção, o poeta reveste-se para o ataque utilizando uma linguagem rude e violenta, gerando muitas vezes inimizades (RAMOS, [20- -?]). O segundo pilar, da produção de seus folhetos, relaciona-se aos romances, nos quais Manoel Pereira adapta, para a linguagem popular, obras eruditas consagradas nacional ou internacionalmente, além de suas próprias criações.

Observemos, então, um trecho de uma de suas obras românticas, conforme o romance intitulado Dimas e Madalena nos labirintos da sorte, sendo este produzido por Manoel Pereira, na década de 90, e publicado pela Editora Luzeiro.

Dimas e Madalena nos labirintos da sorte

[…]

Durante o dia, nas cruzes,

Duas vezes Dimas ia,

Orava e ganhava o mato,

Caçava frutas e comia-

E assim, nesse sofrer,

Confiando em Deus vivia.

 

Cresceu demais o cabelo,

Que todo corpo cobria,

Fazia tangas de embiras

E muito alegre s vestia.

Mudou as feições, de formas

Que ninguém o conhecia.

 

Um dia estava orando,

Ouviu um grito sem fim,

No centro da grande mata,

Bem alto dizendo assim:

– Jesus pai dos pescadores!

Vinde socorrer a mim.

[…]

(p. 13)

De sua produção, destacamos alguns outros folhetos lançados pela Editora Luzeiro, entre eles: A escrava do destino;  Helena, a virgem dos sonhosOs sofrimentos de Célia ou As três espadas de doresRosinha e Sebastião; Tiradentes; o Mártir da Independência, entre outros.

FONTES CONSULTADAS

HAURÉLIO, Marco. Dicionário básico de autores de cordel.  In: CORDEL Atemporal, 5 jun. 2011. Disponível em: <http://marcohaurelio.blogspot.com.br/2011/06/dicionario-basico-de-autores-de-cordel.html>. Acesso em: 04 nov. 2014.

PEREIRA SOBRINHO, Manoel. Dimas e Madalena nos labirintos da sorte. São Paulo: Luzeiro [19- -].

RAMOS, Everaldo. Biografia de Manoel Pereira Sobrinho. In: FUNDAÇÃO CASA RUI BARBOSA. Disponível em: <http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/ManuelPereira/manuelPereira_biografia.html#>. Acesso em: 04 nov. 2014.

Poeta Manoel Monteiro da Silva – Síntese biográfica

Manoel Monteiro da Silva (04/02/1937 – 06/2014)

Manoel Monteiro da Silva nasceu na cidade de Bezerros, a 102 km de Recife, Pernambuco, no dia 4 de fevereiro de 1937, mas desde 1955 morava na Rainha da Borborema, Campina Grande, Paraíba, onde fora radicado.

Em junho de 2014, deixou o mundo do cordel de luto, ao falecer aos 77 anos. Após oito dias desaparecido, o poeta e cordelista pernambucano Manoel Monteiro foi encontrado morto em um quarto de hotel em Belém, Pará. Sua morte foi confirmada pela família dele no final da tarde do dia 8 de junho de 2014 (LOPES, 2014).

Manoel Monteiro foi um dos grandes responsáveis pela difusão da literatura nas escolas. Viveu boa parte de sua vida na cidade de Campina Grande, Paraíba, divulgando a cultura e a história do estado que o acolheu.  Nos últimos anos de sua vida, Manoel Monteiro enfrentava problemas de saúde, sendo diagnosticado com diabetes, apresentando dificuldade na visão, e ainda assim, estava em plena atividade escrevendo livros paradidáticos para grandes editoras. Lançou pouco antes de sua morte, o projeto intitulado: Cordelando a Paraíba, no qual ele e outros escritores recontaram a história de cada um dos 223 municípios paraibanos (LOPES, 2014).

Participou do Projeto Paraíba, Sim Senhor!. Nesse projeto, Manoel Monteiro apresentava resumos biográficos de ilustres filhos deste Estado. Foi também membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), onde ocupava a cadeira de número 38, que era patroneada pelo poeta pernambucano Manoel Tomaz de Assis (HAURÉLIO, 2011).

Detalhista, meticuloso, aborda em seus folhetos, temas variados e polêmicos, com surpreendente objetividade, representante do chamado Novo Cordel. Seguro no ofício de escrever versos rimados e metrificados, suas narrativas são envolventes prendendo o leitor aos seus versos, dando mais valoração e qualidade à sua produção, sendo inclusive indicada a ser trabalhada em várias escolas do Brasil, principalmente pela riqueza de seus escritos.

Manoel Monteiro não é apenas um escritor da poesia popular: acima de tudo, é um grande incentivador e divulgador desta modalidade literária não apenas no estado da Paraíba, mas no Brasil. Foi também um exímio pesquisador da cultura popular, escrevendo artigos para jornais e revistas. Fez das contracapas de seus folhetos uma espécie de espaço de crítica, onde ele expunha o que pensava sobre o assunto abordado em questão (RIBEIRO, 2009). Ganhou em 2010, o prêmio de melhor cordelista do país, outorgado pela Associação Brasileira de Literatura de Cordel, situada no Rio de Janeiro, em Santa Teresa.

Foram mais de 200 títulos escritos por Manoel Monteiro, a exemplo de A Maior Festa Junina é Feita Aqui em CampinaO Castigo da SoberbaUma Tragédia de AmorPeleja de Manoel Camilo com Manoel Monteiro; Padre Cícero: Político ou Padre? Cangaceiro ou Santo?Quer Escrever um Cordel? Aprenda a Fazer FazendoCartilha do DiabéticoA Estória do ET, entre outros.  Ao contrário de alguns poetas, Manoel Monteiro trouxe em seu cordel intitulado: Lampião. Herói de meia tigela um certo tom de crítica e realismo, descortinando as astúcias do coronel Virgulino, vejamos:

Lampião. Herói de meia tigela

Todo cordel produzido

Com, ou sem inspiração,

Mostrando a VIDA e os CRIMES

Do facínora LAMPIÃO,

Não soube, ou fez-se esquecido,

Que só aplaude bandido

Quem só admira ladrão.

 

Tem centenas de folhetos

Sobre a vida dessa escória,

Mas, se uns não dizem nada,

Outros lhes cobre de glória;

Sem pesquisa, se diluem

E em nada contribuem

Com subsídio pra a história

(p. 1)

[…]

Para Manoel, a receita para ser um bom cordelista é produzir seus textos adaptando-os à realidade. Dessa feita, se estamos no século XXI, a produção tem que ser feita baseando-se nas demandas de temáticas atuais. Nesse sentido, o cordel será pensado através de temas da atualidade, possibilitando uma melhor interação com o próprio público leitor.

Diante desse contexto, destacamos como exemplo o cordel produzido pelo poeta Manoel Monteiro, intitulado: Verbos, Versos e Rimas e Nova Ortografia. Para o cordelista, pensar no cordel do século XXI é também pensar na produção de textos que possibilitem uma interação com as escolas brasileiras, sendo uma forma de auxiliar o professor no ensino em sala de aula.

Em entrevista realizada por Rubênio Marcelo, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 26 de abril de 2010, Manoel Monteiro afirma: “… o Novo Cordel de que eu falo é o cordel atual, o cordel do século XXI, este que está sendo utilizado, com eficiência, pelos professores nas salas de aula. O cordel, no momento, está em uma evidência muito maior do que nos seus ditos tempos áureos e pioneiros. Isto é verdade.” Certamente, por pensar assim e agir assim, Manoel Monteiro foi considerado o maior expoente do novo cordel.

FONTES CONSULTADAS

HAURÉLIO, Marco. Dicionário básico de autores de cordel. In: Cordel Atemporal, 5 jun. 2011. Disponível em: <http://marcohaurelio.blogspot.com.br/2011/06/dicionario-basico-de-autores-de-cordel.html>. Acesso em: 04 out. 2014.

LOPESSeverino.  Poeta Manoel Monteiro é encontrado morto em Belém e país perde seu maior cordelista. PB Agora, João Pessoa, 08 de Junho de 2014. Disponível em: <http://www.pbagora.com.br/conteudo.php?id=20140608212234&cat=cultura&keys=poeta-manoel-monteiro-encontrado-morto-belem-pais-perde-seu-maior-cordelista>. Acesso em: 19 out. 2014.

MANOEL Monteiro. In: O NORDESTE.  Disponível em: <http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Manoel+Messias+Belizario+Neto>. Acesso em: 14 nov. 2014.

MANOEL Monteiro da Silva. In: CORDEL de Saia. Disponível em: <http://cordeldesaia.blogspot.com.br/2010 /12/balela-de-belem-manoel-monteiro.html>. Acesso em: 10 nov. 2014.

MONTEIRO, Manoel. Lampião. Herói de meia tigela. 2. ed. Campina Grande, 2011.

______. O maior expoente do novo cordel. Campo Grande, 26 abr. 2010. Entrevista concedida a Rubênio Marcelo. Disponível em: <http://cordelparaiba.blogspot. com.br/2010/04/manoel-monteiro-e-o-novo-cordel.html>. Acesso em: 13 out. 2014.

RIBEIRO, Johniere Alves. Manoel Monteiro: visibilidade de uma poética. 2009. 107 f. Dissertação (Mestrado em Literatura e Interculturalidade) – Universidade Estadual da Paraíba. Campina Grande, 2009.

Poeta Manoel de Assis Campina – Síntese biográfica

Manoel de Assis Campina (1897 )

Manoel de Assis Campina nasceu em Sergipe, no ano de 1897. Foi cantador, poeta cordelista e repentista. Autor de algumas obras como: Aventuras de Justino no reino de sete quartosAparecimento de Padre Cícero na Urucânia com o nome de Padre Antônio; A cheia de 48 e Discussão dum Fiscal com uma Fateira. Esta última já foi, muitas vezes, representada em círculos teatrais populares. Nesta obra, o autor ressignifica a raiva crescente da personagem com relação a um determinado fiscal do Estado. Nesse contexto, a fateira representa a raiva do povo pela imposição do Estado (VIANA, 2014).

FONTE CONSULTADA

VIANA, Rodrigo. Poesia de Cordel… literária?. Mercado Popular. São Paulo, 22/fev/2014. Cultura. Disponível em: <http://mercadopopular.org/2014/02/poesia-de-cordel-libertaria/>. Acesso em: 25 nov. 2014.

Poeta Manoel D’Almeida Filho – Síntese biográfica

Manoel D’Almeida Filho (13/10/1914 – 08/06/1995)

Manoel D’Almeida Filho, filho de Manoel Joaquim D’Almeida e Josefa Pastora da Conceição, nasceu no dia 13 de outubro de 1914 na cidade de Alagoa Grande, no estado da Paraíba e faleceu em Aracaju, Sergipe, no dia 8 de junho de 1995. Filho de agricultores, viveu no campo até os oito anos de idade, quando foi levado pela primeira vez à cidade, onde se deparou com o encanto da literatura de cordel.

Iniciou seu contato com a arte, através da cantoria, assumindo papel de cantador, por um período de sua vida. Mas a sua forte veia poética eclodiu, sendo como poeta de bancada, que Manoel D’Almeida Filho se destacou, produzindo obras admiráveis, de muita qualidade. O seu primeiro folheto foi escrito em 1936, intitulado: A Menina que Nasceu Pintada com as Sobrancelhas Raspadas.

Em 1940, fixou residência em Aracaju, capital de Sergipe, tornando-se, na década de 1950, um dos mais respeitados autores do gênero (QUINTELA, 20?).

Foi em Aracajú, Sergipe, que passou a maior parte de sua vida.  Lá, o poeta manteve uma banca de folhetos. No ano de 1955, ajudou Rodolfo Coelho Cavalcante a organizar o primeiro Congresso de Trovadores e Violeiros, realizado em Salvador. Nesta ocasião, entrou em contato com a Editora Prelúdio (antecessora da Luzeiro) de São Paulo, onde publicaria boa parte de sua obra passando a ser, até meados da década de 90, um dos principais colaboradores desta editora (VIANA, 2011).  Aos oitenta anos, ainda estava em atividade no Mercado Municipal de Aracaju, além de atuar como revisor de diversos originais.  Nesse sentido, percebemos sua dedicação à arte do cordel, até o fim de sua vida, no ano de 1995.

Suas obras ramificam-se em romances de amor e aventuras passados no Nordeste, biografias de cangaceiros, histórias diversas entrelaçando a cultura de massa, além de contos, alguns desses, de cunho erótico, publicados com o pseudônimo Adam Fialho (QUINTELA,20?).

Manoel D’Almeida sempre fora rigoroso com a qualidade de seus escritos. Luciano (2014) lembra que o poeta trabalhava diuturnamente na confecção, buscando a excelência, colecionando as rimas, organizando suas narrativas. O poeta escrevia narrativas longas, sem repetições mantendo sempre sua criatividade.

Dentre suas obras, perfazendo em média 200 títulos publicados, destacamos as seguintes: Vicente, o rei dos ladrões (1953); Josafá e Marieta (1956); Os cabras de Lampeão (1966); Os três conselhos da sorte (1970); Gabriela (1976); A troca das esposas (1982), entre outras.

Uma de suas obras que merece destaque, segundo Luciano (2014), é O Direito de Nascer,que foi escrita baseando-se em uma radio-novela cubana, sendo adaptada para o Brasil na época. Este é, talvez, o maior romance, em termos quantitativos, do cordel brasileiro com aproximadamente 700 sextilhas.

Com sua característica marcante pela extensão de seus escritos, o poeta escreve o poema mais extenso sobre a vida do Capitão Virgulino Ferreira da Silva, o tão conhecido Lampião. Este poema intitulado: Os Cabras de Lampião fora um trabalho preparado com muita pesquisa, muita delicadeza poética, muita lucidez.

 

Os Cabras de Lampião

 

Quando na sua fazenda

Não pode entrar Lampião

Foi expulso pelas tropas,

Dada  a movimentação,

Da política e do Exercito

Que vasculhavam o sertão.

 

Lampião em vista disso

Correu e foi se acoitar

Nas zonas de Pajeú

Onde pode descansar

Numa grota com o grupo

Até a luta passar…

 

Desmantelada a coluna

Com todos os revoltosos

Fugiu para Bolívia

Como maus e perigosos,

Lampião voltou à baila

Com seus atos criminosos.

(p. 19)

[…]

FONTES CONSULTADAS

LUCIANO, Aderaldo. Centenário de Manoel D’Almeida Filho, imortal da poesia brasileira.GGN. O Jornal de todos os Brasis, 05 fev. 2014. Disponível em: <http://jornalggn. com.br/blog/aderaldo-luciano/centenario-de-manoel-dalmeida-filho-imortal-da-poesia-brasileira>. Acesso em: 24 nov. 2014.

MANOEL D’Almeida Santos. In: O NORDESTE.  Disponível em: <http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopedia Nordeste/index.php?titulo=Manoel+D%27Almeida+Filho>. Acesso em: 14 nov. 2014.

QUINTELA, Vilma Mota. Biografia de Manoel D’Almeida Filho. In: FUNDAÇÃO CASA RUI BARBOSA. Disponível em: <http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/ManuelDalmeida/manuelDalmeida_biografia.html#>. Acesso em: 14 nov. 2014.

VIANA, Arievaldo. Dicionário básico de autores de cordel. In: CORDEL Atemporal, 5 jun. 2011. Disponível em: <http://marcohaurelio.blogspot.com.br/2011/06/dicionario-basico-de-autores-de-cordel.html>. Acesso em: 03 nov. 2014.

Poeta Manoel Camilo dos Santos – Síntese biográfica

Manoel Camilo dos Santos (09/06/1905)

Manoel Camilo dos Santos, filho de Antônio Camilo Pereira e Maria Tomaz Ferreira dos Santos nasceu no dia 9 de junho de 1905 na cidade de Guarabira, no brejo paraibano. Faleceu em Campina Grande, onde viveu boa parte de sua vida (SANTOS, 1995).

Criado na agricultura, aos completar 18 anos passou a se dedicar ao comércio ambulante. Na década de 30, foi morar na capital paraibana, João Pessoa, onde trabalhou como marceneiro, sendo também cantador. Mas, na década de 40 abandona a cantoria, passando a dedicar-se a escrever e editar folhetos, iniciando a sua vida de poeta nesse período retornando à sua cidade natal. Na década de 50, dando continuidade a essa feita mudou-se para a cidade de Campina Grande, Paraíba, onde passou a morar.

Manoel Camilo fundou a Tipografia e Folhateria Santos, em Guarabira, e com sua mudança para Campina Grande, a mesma também foi transferida para essa cidade. Após uma reformulação da tipografia, a mesma passou a chamar-se Estrela da Poesia, em detrimento do seu pseudônimo: Estrella da poesia. O poeta, que se estabeleceu na cidade de Campina Grande, nesse período, passou a constituir-se em um dos mais promissores tipógrafos de cordel da região (CIPRIANO, 2013).

Também foi membro fundador da Academia Brasileira de Cordel, ocupando a cadeira de nº 25, que tem como patrono Inácio Catingueira. Suas habilidades se remontam para além da escrita, e este poeta revestido de arte foi também repentista e violeiro, poeta popular, tipógrafo, xilógrafo, datilógrafo, horoscopista, escritor e editor (ALMEIDA; ALVES SOMBRINHO, 1990).

Ao longo de sua jornada, recebeu algumas condecorações em reconhecimento de sua contribuição à cultura brasileira, em especial à poesia. Nesse sentido, em 1955, foi diplomado em Salvador no Congresso de Poetas e Repentistas do Brasil. Em 1960, este reconhecimento se replica, e o poeta Manoel Camilo dos Santos é novamente diplomado, desta vez no segundo Congresso de Poetas e Violeiros, que ocorreu na cidade de São Paulo. Em 1975, o artista paraibano recebeu o prêmio de melhor poeta popular do Brasil, prêmio este concedido pela Universidade Regional do Nordeste, na cidade de Campina Grande, Paraíba. E, em 1978, no Rio de Janeiro, torna-se patrono da Casa da Cultura São Saruê, cujo nome homenageia o poeta pelo seu poema, intitulado: Viagem a São Saruê.

Como viveu grande parte de sua história na cidade de Campina Grande-PARAÍBA, onde ocorrem entre os meses de junho e julho os festejos juninos, denominados O maior São João do mundo, o poeta não poderia deixar de ser homenageado. Nesse sentido, no Arraial Sítio São João, em Campina Grande, todos os anos, instala-se uma casa-folhetaria na qual ficam abertos para visitação pública, peças e maquinários da Estrella da Poesia.

Nessa longa jornada, produtiva e criativa, Manoel Camilo dos Santos teve como seus primeiros folhetos publicados O Romance de Abel com Margarida e a Peleja com Pedro Simão.

Em 1955, publicou outro folheto intitulado: O Sabido sem Estudo; em 1956, publicou a Viagem a São Saruê, por ventura seu folheto mais famoso, que foi inclusive traduzido para o francês, em 1979, pela professora Idelete Muzart F. Dos Santos, compondo o livroLes Imaginaires (ALMEIDA; ALVES SOMBRINHO, 1990). No folheto que contém dez páginas, com xilogravuras na capa e em algumas páginas, o poeta utilizou trinta e uma estrofes em sextilhas, com versos em redondilha maior e duas estrofes em décimas, com versos decassílabos, que descrevem uma viagem a um lugar onde há vida em abundância, fartura na comida, felicidade, não existem problemas e nem preocupação com trabalho e dinheiro, todos vivem bem e felizes (SANTOS, 1995).

 

Viagem a São Saruê

Doutor mestre pensamento

me disse um dia: -Você

Camilo vá visitar

o país São Saruê

pois é o lugar melhor

que neste mundo se vê.

Eu que desde pequenino

sempre ouvia falar

nesse tal São Saruê

destinei-me a viajar

com ordem do pensamento

fui conhecer o lugar.

 

Iniciei a viagem

as quatro da madrugada

tomei o carro da brisa

passei pela alvorada

junto do quebrar da barra

eu vi a aurora abismada.

 

Pela aragem matutina

eu avistei bem defronte

a irmã da linda aurora

que se banhava na fonte

já o sol vinha espargindo

no além do horizonte.

Surgiu o dia risonho

na primavera imponente,

as horas passavam lentas

o espaço encandescente

transformava a brisa mansa

em um mormaço dolente.

(p. 1)

[…]

Este folheto traz nuances de um imaginário, remontando a uma terra que esbanja fartura, lugar impossível de existir, exalando paralelamente uma utopia, que se entrelaça em seus escritos.

Manoel Camilo conviveu com intelectuais, tais como: Ariano Suassuna, João Silveira, Orígenes Lessa, Sebastião José do Nascimento, entre outros. Dialogando também com intelectuais da literatura cordelista, entre os quais destacamos Manoel Caetano e Zé Nogueira. Nesse sentido, Gomes e Bezerra (2014) relatam que esses diálogos, associados às leituras de vida do próprio escritor, possibilitaram a organização de seu espaço literário. O referido poeta discutiu em suas obras determinados temas com raízes nordestinas, entre eles: o cangaço, a seca, o matuto, a fome, etc. Ele conferiu a seus cordéis, temáticas próprias da região Nordeste, percebendo-se que em centenas deles, essas temáticas se destacam (GOMES; BEZERRA, 2014).

Com relação às temáticas por ele exploradas em sua produção, destacamos dois cordéis romances, entre eles: A Bela Sertaneja e Amantes Encarcerados; histórias do cangaço, como o Terror do Banditismo e Monstros da Paraíba; aventuras, como As aventuras de Pedro Quengo; pelejas, como A primeira peleja de Manoel Camilo dos Santos como Romano Elias; religiosidade como Nascimento vida e morte de Jesus; entre outros cordéis (GOMES; BEZERRA, 2014).

FONTES CONSULTADAS

ALMEIDA, Átila; ALVES SOBRINHO, José.  Dicionário bio-bibliográfico  de  poetas populares. 2. ed. João Pessoa: UFPB, 1990.

CIPRIANO, Maria do Socorro. Tipografia de cordel na Paraíba: entre o comércio e a poesia. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 17., Natal.  Anais… Natal: [s.n.], 2013.

GOMES, Germana Guimarães; BEZERRA, Aluska Karla Alves. O DISCURSO regionalista nordestino nos cordéis de Manoel Camilo dos Santos. Disponível em: <http://www.anpuhpb.org/anais_xiii_eeph/textos/ST%2018%20-%20Germana%20Guimar%C3%A3es%20Gomes% 20e%20Aluska%20Karla%20Alves%20Bezerra%20TC.PDF>. Acesso em: 02 out. 2014.

WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Manuel Camilo dos Santos. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/ Manuel_Camilo_dos_Santos#Liga.C3.A7.C3.B5es_externas>. Acesso em: 16 nov. 2014.

OLIMPIO Oliveira Solicita Criação do Museu do Cordel. In: SISTEMA Nordeste de Notícia: on line. Disponível em: <http://www.snn.com.br/noticia/52316/14/olimpio-oliveira-solicita-criacao-do-museu-do-cordel.html>. Acesso em: 28 nov. 2014.

MANOEL Camilo dos Santos. In: Cordel, autores e obra.  Disponível em: <http://cordel1002.blogspot.com.br/2013/ 11/manoel-camilo-dos-santos.html>. Acesso em: 22 nov. 2014.

SANTOS, Neide Medeiros. Viagem a São Saruê: uma viagem utópica. Itinerários, Araraquara, n. 8, p. 123-128, 1995.

SOUSA, Maurilio Antonio Dias de. Biografia de Manoel Camilo dos Santos. In: FUNDAÇÃO CASA RUI BARBOSA. Disponível em: http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/ManuelCamilo/manuelCamilo_biografia.html. Acesso em: 13 nov. 2014.

 

Poeta Manoel Caboclo e Silva – Síntese biográfica

Manoel Caboclo e Silva (02/01/1926 – 21/07/1996)

Manoel Caboclo e Silva nasceu no dia 2 de janeiro de 1926, em Juazeiro do Norte, Ceará, filho de João Caboclo da Silva e Rita Zeferina de Athayde. Sua aproximação com os folhetos deu-se no ano de 1938, quando o mesmo foi convidado por José Bernardo da Silva para trabalhar como aprendiz na Tipografia São Francisco. Dedicado ao trabalho, Manoel Caboclo foi gradativamente aprendendo o ofício, trabalhando inclusive no processo de produção dos folhetos da tipografia.

No final da década de 40, Manoel Caboclo deixa a Tipografia São Francisco, indo trabalhar com João Ferreira de Lima, astrólogo, poeta e editor do Almanaque de Pernambuco, que era impresso na Tipografia São Francisco. Carvalho (2008) reforça que Manoel Caboclo desenvolveu, ao longo de sua passagem pela Tipografia São Francisco, um conhecimento tanto no que tange à produção, editoração e distribuição dos folhetos de cordel, como também à arte e magia da ciência astrológica.

Na parceria com João Ferreira de Lima, munido de uma vasta experiência, os dois abriram em sociedade uma gráfica localizada próximo ao Mercado Central de Juazeiro do Norte. Passou, assim, a imprimir o Almanaque de Pernambuco na sua gráfica. Alçando novos voos, João Ferreira desfaz a sociedade, e Caboclo dá continuidade no ramo, montando a sua própria tipografia.

Tipografia essa inaugurada em 1966, intitulada, Folhetaria Casa dos Horóscopos. Lá, Caboclo publicou trabalhos de sua autoria e de outros autores como João Cordeiro e João de Cristo Rei. Nossa Senhora chorando falou à menina de dez anos foi o folheto mais famoso da Tipografia, com uma tiragem de 45 mil cópias, conforme relatos do próprio Manoel Caboclo.

No ano de 1973, Caboclo adquiriu os direitos de publicação de Joaquim Batista de Sena que editava cordéis em Fortaleza, adquirindo também os direitos de publicação das obras de Luiz da Costa Pinheiro e de José Camelo, pertencentes a Batista de Sena.

A Folhetaria Casa dos Horóscopos editou, não apenas cordéis, mas também o almanaque O Juízo do Ano. Porém, com a morte de Manoel Caboclo, morre também a Folhetaria, que encerrou suas atividades exatamente no dia de sua morte, 21 de julho de 1996 (CARVALHO, 2008).

Após a morte de Caboclo, o almanaque O Juízo do Ano, que já passava por um período de crise, também deixa de circular, fato que já havia sido previsto por Manoel Caboclo, quando previu através da astrologia, uma fase complicada em razão das turbulências provocadas por Saturno (CARVALHO, 2006).

Melo (2011, p. 116) enfatiza: “as aproximações entre os almanaques e a literatura de cordel podem ser percebidas por meio da leitura do almanaque Juízo do ano, editado pelo poeta de cordel Manoel Caboclo durante o período de crise em sua tipografia”. A autora relata que Manoel Caboclo harmonizava a escritura poética e paralelamente informativa, refletindo em suas produções.

Outro ponto relevante é o fato de o cordelista também conciliar os seus dotes astrológicos, vendendo talismãs e horóscopos individuais por meio de correspondências trocadas com os consulentes, através da própria produção da tipografia. Fato este perceptível através da edição de 1970 do Juízo do ano, na qual Manoel Caboclo apresenta os efeitos nocivos do hábito de fumar e, paralelamente, aproveita para fazer propaganda de seus serviços como astrólogo (MELO, 2011).

Neste sentido, este poeta, cordelista, artista, teve sua importância para o sertanejo, oferecendo-lhes serviços tais como: horóscopos individuais, astrologia, astronomia, numerologia, parapsicologia, radioterapia, fenologia, onoromancia e outras ciências ocultas (CARVALHO, 2006).

No que tange à produção de suas obras, é curioso saber que Caboclo produzia seus folhetos inicialmente de forma anônima, mas, por sugestão do pesquisador Liêdo Maranhão, passou a assumir a sua autoria.

Seus poemas versam sobre os mais variados detalhes do cotidiano vivenciados pela sociedade contemporânea, tais como violência, romances, lutas e histórias de amor, mas foi a vertente religiosa, centrada na figura de Pe. Cícero, a maior parte de sua produção poética.

Como escritor, estima-se que ele tenha escrito mais de 50 folhetos, além de ter deixado um legado valioso que foi o almanaque O Juízo do Ano que é objeto de pesquisa até os dias de hoje.

Vejamos como no seu folheto intitulado Discussão do Caboclo com Severino Pavão, o cordelista esbanja o cotidiano no interior, remontando ao canto da viola e até mesmo ao período de São João, atestando sua veia marcante nas questões já citadas.

 

Discussão do Caboclo com Severino Pavão

No ano de trinta e quatro

a vinte e três de São João

as nove horas do dia

me entregaram um cartão

que tinha as iniciais

de SEVERINO PAVÃO

 

No cartão dizia assim:

– “ Sou o rei da poesia”

só canto com cabra bom

que sirva pra cantoria.

Eu mandei logo chamá-lo

na tarde do mesmo dia.

 

O povo já conhecia

minha viola afamada

eu só ia a uma cantoria

com uma aposta firmada

para o cantor que perdesse

a viola ser quebrada.

 

Na Fazenda do Angico

nesta noite de São João

só era em que se falava

numa grande discussão

para quebrarem a viola

De Severino Pavão.

 (p. 1)

[…]

 

As lembranças de infância são uma das características na obra de Manoel Caboclo, atestada através de suas memórias reavivadas pelo poeta que as transformava em suas narrativas históricas a partir de sua singular poética.

FONTES CONSULTADAS

CARVALHO, Reinaldo Forte. Cordel, Almanaques e Horóscopos: e(ru)dição dos folhetos populares em Juazeiro do Norte-CE (1940 – 1960). 2008, 127 f. Dissertação (Mestrado História e Cultura) – Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2008.

CARVALHO, Gilmar de. Lyra popular. Fortaleza: Museu do Ceará, 2006.

MELO, Rosilene Alves de. Almanaques de cordel: do fascínio da leitura para a feitura da escritura, outro campo de pesquisa. Revista ieb, n. 52, p. 107-122, set./mar. 2011.

MEMÓRIAS DO CORDEL. Manoel Caboclo e a Folhetaria Casa dos Horóscopos. Disponível em: <http://memorias docordel.blogspot.com/2013/05/manoel-caboclo-e-folhetaria-casa-dos.html&gt;>. Acesso em: 23 nov. 2014.

MEMÓRIAS DO CORDEL. Almanaque O Juízo do Ano. Disponível em: <http://memoriasdocordel.blogspot.com. br/2013/05/almanaque-o-juizo-do-ano.html&gt>. Acesso em: 23 nov. 2014.

Poeta Manoel Azevedo – Síntese biográfica

Manoel Azevedo (08/12/1962)

Manoel Azevedo nasceu em 8 de dezembro de 1962. Nordestino potiguar, nasceu na cidade de Santana do Mato, estado do Rio Grande do Norte. Além de poeta, é músico e professor lecionando aulas de línguas portuguesa e inglesa.

Apaixonado pela arte desde sua infância, ele admirava e se encantava pela narrativa dos versos de cordel, ouvida pelo rádio ou nas feiras livres, onde se deleitava contemplando as estórias contadas pelos cordelistas.

De acordo com Lima (2014), Manoel de Azevedo saiu aos nove anos de idade de sua terra natal, rumo à capital do Rio Grande do Norte, onde fez seus estudos básicos e despontou para a música, poesia e para o magistério. Ao longo de sua trajetória no universo artístico e educacional, Manoel de Azevedo recebeu vários prêmios e homenagens por sua dedicação à cultura popular, além de sua contribuição também para a educação. Foi contemplado também no Festival de Música Potiguar Brasileira 2011, ficando em 3º lugar, com a música Aurora na Serra de Santana, que remete à sua cidade natal.  Esse festival foi promovido pela FM Universitária

Lima (2014) afirma que Manoel de Azevedo é um exemplo pouco comum de artista versátil. Segundo o autor, essa versatilidade está relacionada ao próprio itinerário existencial do poeta Manoel que percorreu na vida, como estações principais, Santana do Matos, Natal, e Londres. Esse trajeto reflete profundamente a sua produção poética, ressalta Lima (2014).

Dentro de seu contexto literário, Manoel parece explorar suas obras em três estações, a saber: a primeira delas por influência de sua cidade natal, Santana do Matos, período em que o  poeta remonta ao sertão, ressignificando suas lembranças. Posteriormente, ele penetra no universo do novo convívio, a cidade de Natal, no qual Lima (2014) intitula, um novo amor, uma nova musa, a cidade de Natal, retratando suas paisagens lírica, física, humana. E, a terceira estação, em que o poeta desabrocha-se em poemas de feição erudita, alguns escritos em inglês como Ode to Vivaldi e outros de alma inglesa, Liverpooliana, como Lennon in the sky with diamonds.

Mergullhou no universo dos cordéis no ano de 2000, ano em que Manoel Azevedo fez o seu primeiro cordel intitulado: O Misto, no Projeto Chico Traíra. Entre as suas produções mais recentes está o cordel intitulado: A Tragédia do Nyenburg (Episódio dos Tempos Coloniais no Rio Grande do Norte), lançado pela Editora Luzeiro. Neste, o poeta descreve em linguagem de cordel uma tragédia marítima ocorrida com um navio holandês, em 1763. Manoel de Azevedo narra a desventura do NYENBURG.

FONTES CONSULTADAS

MANOEL de Azevedo. 5º ANOS. In: Cordel Potiguar. Disponível em: <http://cordelpotiguar.blogspot.com.br/ 2012/11/manuel-de-azevedo-50-anos.html>. Acesso em: 08 nov. 2014.

______. In: O NORDESTE: enciclopédia nordeste. Disponível em: <http://www.onordeste.com /onordeste/enciclopedia Nordeste/index.php?titulo=Manuel+de+Azevedo>. Acesso em: 10 nov. 2014.

CORDEL Resgata História do Bairro Candelária. Tribuna do Norte, Natal-RN, 19 nov. 2011. Disponível em: <http://tribunadonorte.com.br/noticia/cordel-resgata-historia-do-bairro-candelaria/203196>. Acesso em: 10 nov. 2014.

LIMA, Diógenes da Cunha. In: MANOEL de Azevedo lança “A Tragédia do Nyenburg. Disponível em: <http://foque.com.br/ taian/index.php/manuel-azevedo-lanca-a-tragedia-do-nyenburg/>. Acesso em: 25 nov. 2014.

Poeta Josenir Amorim Alves de Lacerda – Síntese biográfica

Josenir Amorim Alves de Lacerda (16/01/1953)

Nasceu em Crato, Ceará, no dia 16 de janeiro de 1953. Com trabalho alicerçado na cultura popular, ela tem publicado vários cordéis ao longo da história. É uma das fundadoras da Academia de Cordelistas do Crato (ACC), na qual ocupa a cadeira n° 03. Recentemente, tomou posse na Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). A autora verseja em rimas, como ocorre no poema O menino que nasceu falando:

 

Uma história interessante

Contou-me o velho Chicão

Acontecida distante

Num afastado torrão

Só não sei bem o lugar

Se São Paulo ou Trapiá

Norte ou Sul dessa nação.

[…]

FONTES CONSULTADAS

BEZERRA, Sandra Nancy Ramos Freire. Oralidade, memória e tradição nas narrativas de assombrações na região do Cariri. 2011. 177 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Ceará, Centro de Humanidades, Departamento de História, Programa de Pós-graduação em História Social, Fortaleza, 2011.

CORDEL Atemporal. Disponível em: <http://marcohaurelio.blogspot.com.br/2011/06/dicionario-basico-de-autores-de-cordel.html&gt;>. Acesso em: 26 nov. 2014.

LACERDA, Josenir Amorim Alves de. O menino que nasceu falando. Disponível em: <http://docvirt.com/docreader.net/ docreader.aspx?bib=Cordel&pasta=C3905&pesq=>. Acesso em: 12/06/2014.

QUEIROZ, Doralice Alves de. Percepções do universo feminino na Literatura de Cordel. 2006. 121 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Programa de Pós-graduação em Letras, Belo Horizonte, 2006.