Poeta Manoel Caboclo e Silva – Síntese biográfica

Manoel Caboclo e Silva (02/01/1926 – 21/07/1996)

Manoel Caboclo e Silva nasceu no dia 2 de janeiro de 1926, em Juazeiro do Norte, Ceará, filho de João Caboclo da Silva e Rita Zeferina de Athayde. Sua aproximação com os folhetos deu-se no ano de 1938, quando o mesmo foi convidado por José Bernardo da Silva para trabalhar como aprendiz na Tipografia São Francisco. Dedicado ao trabalho, Manoel Caboclo foi gradativamente aprendendo o ofício, trabalhando inclusive no processo de produção dos folhetos da tipografia.

No final da década de 40, Manoel Caboclo deixa a Tipografia São Francisco, indo trabalhar com João Ferreira de Lima, astrólogo, poeta e editor do Almanaque de Pernambuco, que era impresso na Tipografia São Francisco. Carvalho (2008) reforça que Manoel Caboclo desenvolveu, ao longo de sua passagem pela Tipografia São Francisco, um conhecimento tanto no que tange à produção, editoração e distribuição dos folhetos de cordel, como também à arte e magia da ciência astrológica.

Na parceria com João Ferreira de Lima, munido de uma vasta experiência, os dois abriram em sociedade uma gráfica localizada próximo ao Mercado Central de Juazeiro do Norte. Passou, assim, a imprimir o Almanaque de Pernambuco na sua gráfica. Alçando novos voos, João Ferreira desfaz a sociedade, e Caboclo dá continuidade no ramo, montando a sua própria tipografia.

Tipografia essa inaugurada em 1966, intitulada, Folhetaria Casa dos Horóscopos. Lá, Caboclo publicou trabalhos de sua autoria e de outros autores como João Cordeiro e João de Cristo Rei. Nossa Senhora chorando falou à menina de dez anos foi o folheto mais famoso da Tipografia, com uma tiragem de 45 mil cópias, conforme relatos do próprio Manoel Caboclo.

No ano de 1973, Caboclo adquiriu os direitos de publicação de Joaquim Batista de Sena que editava cordéis em Fortaleza, adquirindo também os direitos de publicação das obras de Luiz da Costa Pinheiro e de José Camelo, pertencentes a Batista de Sena.

A Folhetaria Casa dos Horóscopos editou, não apenas cordéis, mas também o almanaque O Juízo do Ano. Porém, com a morte de Manoel Caboclo, morre também a Folhetaria, que encerrou suas atividades exatamente no dia de sua morte, 21 de julho de 1996 (CARVALHO, 2008).

Após a morte de Caboclo, o almanaque O Juízo do Ano, que já passava por um período de crise, também deixa de circular, fato que já havia sido previsto por Manoel Caboclo, quando previu através da astrologia, uma fase complicada em razão das turbulências provocadas por Saturno (CARVALHO, 2006).

Melo (2011, p. 116) enfatiza: “as aproximações entre os almanaques e a literatura de cordel podem ser percebidas por meio da leitura do almanaque Juízo do ano, editado pelo poeta de cordel Manoel Caboclo durante o período de crise em sua tipografia”. A autora relata que Manoel Caboclo harmonizava a escritura poética e paralelamente informativa, refletindo em suas produções.

Outro ponto relevante é o fato de o cordelista também conciliar os seus dotes astrológicos, vendendo talismãs e horóscopos individuais por meio de correspondências trocadas com os consulentes, através da própria produção da tipografia. Fato este perceptível através da edição de 1970 do Juízo do ano, na qual Manoel Caboclo apresenta os efeitos nocivos do hábito de fumar e, paralelamente, aproveita para fazer propaganda de seus serviços como astrólogo (MELO, 2011).

Neste sentido, este poeta, cordelista, artista, teve sua importância para o sertanejo, oferecendo-lhes serviços tais como: horóscopos individuais, astrologia, astronomia, numerologia, parapsicologia, radioterapia, fenologia, onoromancia e outras ciências ocultas (CARVALHO, 2006).

No que tange à produção de suas obras, é curioso saber que Caboclo produzia seus folhetos inicialmente de forma anônima, mas, por sugestão do pesquisador Liêdo Maranhão, passou a assumir a sua autoria.

Seus poemas versam sobre os mais variados detalhes do cotidiano vivenciados pela sociedade contemporânea, tais como violência, romances, lutas e histórias de amor, mas foi a vertente religiosa, centrada na figura de Pe. Cícero, a maior parte de sua produção poética.

Como escritor, estima-se que ele tenha escrito mais de 50 folhetos, além de ter deixado um legado valioso que foi o almanaque O Juízo do Ano que é objeto de pesquisa até os dias de hoje.

Vejamos como no seu folheto intitulado Discussão do Caboclo com Severino Pavão, o cordelista esbanja o cotidiano no interior, remontando ao canto da viola e até mesmo ao período de São João, atestando sua veia marcante nas questões já citadas.

 

Discussão do Caboclo com Severino Pavão

No ano de trinta e quatro

a vinte e três de São João

as nove horas do dia

me entregaram um cartão

que tinha as iniciais

de SEVERINO PAVÃO

 

No cartão dizia assim:

– “ Sou o rei da poesia”

só canto com cabra bom

que sirva pra cantoria.

Eu mandei logo chamá-lo

na tarde do mesmo dia.

 

O povo já conhecia

minha viola afamada

eu só ia a uma cantoria

com uma aposta firmada

para o cantor que perdesse

a viola ser quebrada.

 

Na Fazenda do Angico

nesta noite de São João

só era em que se falava

numa grande discussão

para quebrarem a viola

De Severino Pavão.

 (p. 1)

[…]

 

As lembranças de infância são uma das características na obra de Manoel Caboclo, atestada através de suas memórias reavivadas pelo poeta que as transformava em suas narrativas históricas a partir de sua singular poética.

FONTES CONSULTADAS

CARVALHO, Reinaldo Forte. Cordel, Almanaques e Horóscopos: e(ru)dição dos folhetos populares em Juazeiro do Norte-CE (1940 – 1960). 2008, 127 f. Dissertação (Mestrado História e Cultura) – Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2008.

CARVALHO, Gilmar de. Lyra popular. Fortaleza: Museu do Ceará, 2006.

MELO, Rosilene Alves de. Almanaques de cordel: do fascínio da leitura para a feitura da escritura, outro campo de pesquisa. Revista ieb, n. 52, p. 107-122, set./mar. 2011.

MEMÓRIAS DO CORDEL. Manoel Caboclo e a Folhetaria Casa dos Horóscopos. Disponível em: <http://memorias docordel.blogspot.com/2013/05/manoel-caboclo-e-folhetaria-casa-dos.html&gt;>. Acesso em: 23 nov. 2014.

MEMÓRIAS DO CORDEL. Almanaque O Juízo do Ano. Disponível em: <http://memoriasdocordel.blogspot.com. br/2013/05/almanaque-o-juizo-do-ano.html&gt>. Acesso em: 23 nov. 2014.

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