Todos os posts de Memórias da Poesia Popular

Sobre Memórias da Poesia Popular

Projeto (CNPq/PPGCI-UFPB) vinculado ao Grupo de Pesquisa Leitura, Organização, Representação, Produção e Uso da Informação, coordenado pela professora Dra. Maria Elizabeth Baltar Carneiro de Albuquerque, docente e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba.

Poeta José Anchieta Dantas Araújo – Produção literária

A geografia da mulher

A grande seca em São Paulo mostra a cara do Nordeste

A guerra contra o mosquito da dengue

As proezas de João Grilo e o capitão do navio

Chifre é coisa do passado pro homem informatizado

Coxinha, a autarquia da falsidade

Mãe natureza, filho ingrato e aquecimento global

Nós e a metrópole

O desastre do planeta Terra no aquecimento global

O passageiro do tempo

O quebra-pau entre Pelé e Maradona

O testamento de Zé do Jati

Rancho nova esperança

Seu Lunga, campeão do mau humor

Seu Lunga, campeão do mau humor e outras histórias

Poeta José Anchieta Dantas Araujo – Síntese biográfica

O poeta, cordelista e humorista cearense, de Jati (CE), José Anchieta Dantas Araújo, para comemorar 13 anos de estrada na seara da poesia popular, publicou coletânea com dez dos seus sucessos em folhetos de cordel, intitulado Seu Lunga: o campeão do mau humor e outras histórias (2012). (POETA …, 2012).

José Anchieta ao participar do programa televisivo Nas Garras da Patrulha, na TV Diária em Fortaleza (CE), criou um personagem que deu origem ao seu pseudônimo – Zé do Jati (PAIO, 2013).

O desejo de dedicar-se à literatura surgiu em Zé do Jati, ainda na infância, e foi na literatura de cordel que realizou seu sonho. Em entrevista a Paio (2013), o cordelista contou:

Desde pequeno lia e escrevia bastante. Com 14 anos de idade eu já gostava de ler os poemas de Castro Alves. Desde essa época, eu tinha vontade de publicar meus pensamentos e percebi que no cordel podia fazer minhas críticas, mas sempre com humor.

Cordelista desde o ano de 1999, Zé do Jati aponta o silêncio e a tranquilidade noturnos como geradores do processo criativo, o que não impede os momentos de inspiração repentina, como relatou: “Já aconteceu de eu ter umas ideias durante minhas viagens e até quando estou dirigindo” (PAIO, 2013).

Aos 20 anos, quando foi residir em São Paulo (1976), Zé do Jati escreveu poemas e um ano depois de retornar às origens publicou seu primeiro livro – Nós e a Metrópole (1981) (PAIO, 2013).

José Anchieta aponta os poetas Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa como leituras prazerosas para seus estros poéticos (PAIO, 2013).

Este grande poeta popular mostra toda a sua irreverência no cordel Seu Lunga, o campeão do mau humor, cujas estrofes são transcritas.

A vida tem regras claras
E quem quiser viver bem
Nunca a um amigo conta
Algum segredo que tem
Pois pra não correr perigo
É bom saber que o amigo
Tem outro amigo também
 
Seu Lunga tava gripado
Lhe deram limão com mel
Três doses de aguardente
Um chá amargo igual fel
Lunga dormiu de repente
Quando acordou sorridente
Disse: - Eu estive no céu.
 
Mas só para a mulher
Essa estória contou
Ordenou: - guarde segredo
Ela jura que guardou
Mas, isso virou futrica
E em casa ninguém explica
como a estória vazou
 
Pois logo no mesmo dia
A vizinha cochichava
Sobre o sonho de Lunga
A amiga que passava
E de cochicho em cochicho
"Igualsin" fogo no lixo
A estória se espalhava
 
Contaram o sonho no Crato
E depois lá em Sobral
Em São João da Perna Fina
E Riacho Marechal
De boca em boca contando
A estória se espalhando
Chegou lá em Bacabal
 
Um caminhoneiro ouviu
Contou lá em Laço Froxo
Se espalhou por Londrina
Por Várzea de Sete-Coxo
Depois contaram em Salgueiro
No Icó e Limoeiro
E em São Miguel do Pau-Roxo
 
[...]
 
(ARAÚJO, 2008)

FONTES CONSULTADAS

ARAÚJO, José Anchieta Dantas. O segredo de seu Lunga: campeão do mau humor. Fortaleza: [s.n.], 2008. V. 5, 18 p.

PAIO, Ícaro. Conheça a história de vida do cordelista José Anchieta Dantas Araújo, assistido da FAELCE. [S.l. : s.n.]. In: FAELCE. 5 jul. 2013. Disponível em: <http://www.faelce.com.br/site2013/?tp=nt&cod=636&gt;. Acesso em: 23 ago. 2017.

POETA reúne cordéis em livros. [S.l. : s.n.]. In: Diário do Nordeste. 6 out. 2012. Disponível em: <http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/regional/poeta-reune-cordeis-em-livro-1.643921&gt;. Acesso em: 23 ago. 2017.

ZÉ DO JATI lança coletânea de cordéis em livro. [S.l. : s.n.]. In: Diário do Nordeste. 9 out. 2012. Disponível em: <http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/ze-do-jati-lanca-coletanea-de-cordeis-em-livro-1.647230&gt;. Acesso em: 23 ago. 2017.

Poeta João Siqueira de Amorim – Produção literária

AMORIM, João Siqueira de. Os quatro direitos do pobre. [S.l;]: Centro de Referência Cultural: Editora Henrique  Galeano, [19–].

AMORIM, João Siqueira de. O reino do catimbó e o caboclo mamador. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto: Tip. Real, [19–].

AMORIM, Siqueira de. Os estrupícios da cachaça. [S.l.]: CERES, 1986.

Poeta João Siqueira de Amorim – Síntese biográfica

O poeta cantador João Siqueira de Amorim nasceu em Barbalha (CE) em 16 de junho de 1913 e faleceu aos 82 anos, no dia 16 de novembro de 1995.  O esposo de Dona Raimundinha era filho de pais humildes e não teve acesso à educação formal, mas ouvindo o repentista alagoano Zé Félix, ainda criança, decidiu ser cantador (PAULINO, 2011; VIEIRA, 2013a; VIEIRA, 2013b).

Vieira (2013b) conta que o repentista dedicou-se ao cordel após perder a voz por problemas na laringe, consequência de uma cirurgia para retirada de uma espinha de peixe, mas Viana (2011) diz que o cantador “[…] perdeu a voz após uma exaustiva maratona de apresentações Nordeste afora”. Ambos mencionam várias homenagens feitas para Siqueira, de poemas historiando o incidente à canção intitulada Voz do Siqueira, de Alberto Porfírio.

Fundou o jornalzinho A Voz do Cantador (Fortaleza, 1956), veículo de comunicação da Associação dos Cantadores do Nordeste, com primeiro número datado de 1 de janeiro de 1956 (PAULINO, 2011).

Paulino (2011) relata que Siqueira não se deixou vencer, apesar da tristeza pelo incidente sofrido, e por meio de sua verve poética assim se expressou:

Passarinho lavandeira,
Canta e diz para a cidade
Que a viola do Siqueira
Emudeceu de saudade!...
 
Qual a razão, quais os males
Que fiz aos meus semelhantes
Para perder minha voz
No curso de alguns instantes?
Às vezes, sonho cantando,
Mas é o sonho enganando
As minhas cordas vocais;
De alegria me transbordo,
Porém depois quando acordo
Tudo é mudez… nada mais.
 
Quanta tristeza me invade
Quando a manhã vem raiando:
Eu ouço o concerto alegre
Da passarada cantando…
Acordes da melodia
Trazem aquela alegria
Da aurora que surge além,
Enquanto eu, mudo, enlutado,
Me lembro que no passado
Já fui cantador também.
 
Em certas horas soluço
Qual um órfão pela rua;
Chora comigo a saudade
Nas noites claras de lua…
Meus tempos de cantorias,
Meus “quadrões”, minhas porfias,
No litoral, nos sertões.
O sabiá sem gaiola
Perdeu a voz, a viola,
O sonho, a rima, as canções…
 
Nesses momentos divinos
Sob estranhos pesadelos,
Chegam-me versos e rimas,
Mas eu não posso dizê-los:
Minha viola querida
Lá num canto emudecida,
Como quem tudo perdeu.
Quero cantar, como outrora,
Procuro a voz, foi embora,
Minhalma também morreu!...

O extraordinário cantador Siqueira de Amorim começou a cantar em 1928. Na trajetória, fez dupla com o violeiro Domingos Fonseca e outros repentistas, como Rogaciano Leite, Cego Aderaldo e Granjeiro. Foi funcionário público e jornalista, tendo chegado a Fortaleza (CE) no ano de 1935, passando a contribuir nos jornais Gazeta de Notícias, O Povo, O Estado e Correio do Ceará; neste último, manteve a secção Poesia Popular. Foi sócio efetivo da Associação Cearense de Imprensa (ACI) desde 1950 (PAULINO, 2011; VIEIRA, 2013b).

Vieira (2013b; 2013a) conta que entrevistou Siqueira para o programa Canto Sertanejo da Rádio Pitaguary, na década de 90. Nesse momento, expressou manter sua existência ao rimar cordéis, além de divulgar possuir material inédito para publicação, e apesar de não possuir condições financeiras, nem apoio de instituições culturais, tinha esperança de vir a lançar. Vieira (2013a) conta que alguns anos após o falecimento de Siqueira, “os originais guardados em ambiente insalubre, na velha residência, foram destruídos”.

O autor de Ecos da Juventude (1949) publicou cordéis, como Os Estrupícios da Cachaça (1986).  (VIEIRA, 2013b)

Depois de falar um pouco
Da vida do macumbeiro,
Palavra que representa
O mesmo catimbozeiro,
Vou tirar algumas lapas
Do couro do cachaceiro.
 
Vejam bem, caros leitores,
O que é que a cachaça faz:
Desce queimando a garganta
Numa fusão de água e gás,
Depois sobe pra cabeça
Transformando em satanás!
 
O viciado em bebidas
Sempre dela se socorre,
Para o calor, para o frio,
Toma todo dia um porre,
Só vive matando o “bicho”
E esse bicho nunca morre...
(AMORIM, 1986)

Vieira (2013a) lançou Nos caminhos da Vida de Siqueira de Amorim, reprodução das crônicas de Siqueira publicadas em jornais de Fortaleza, entre as décadas de 40 e 60. O pesquisador assim descreve o cantador cordelista: “[…] não foi somente um poeta repentista ao som da viola, mas um formador de opinião, admirado por colegas do repente e intelectuais. Compunha a elite de cantadores de sua época […]”.

FONTES CONSULTADAS

AMORIM, Siqueira de. Os estrupícios da cachaça. [s.n.]: Ceres, 1986. 8 p.

VIANA, Arievaldo. Alberto Porfírio: um mestre da poesia popular. [S.l. : s.n.]. In: Acorda Cordel. 22 jun. 2011. Disponível em: <http://acordacordel.blogspot.com.br/2011/06/alberto-porfirio_22.html&gt;. Acesso em: 30 ago. 2017.

VIEIRA, Guaipuan. Livro narra história de Siqueira de Amorim. [S.l. : s.n.]. In: Academia Municipalista de Letras do Estado do Ceará (AMLECE). 24 maio 2013a. Disponível em: <http://amlece.blogspot.com.br/&gt;. Acesso em 30 ago. 2017.

VIEIRA, Guaipuan. Siqueira de Amorim. [S.l. : s.n.]. In: Centro Cultural de Cordelistas do Nordeste (CECORDEL). 25 jan. 2013b. Disponível em: <http://cecordel.blogspot.com.br/2013/01/siqueira-de-amorim-por-guaipuan-vieira.html&gt;. Acesso em: 30 ago. 2017.

PAULINO, Pedro Paulo. Lamento de um cantador. Canindé: [s.n.]. In: Vila Campos Online. 8 jul. 2011. Disponível em: <http://vilacamposonline.blogspot.com.br/2011/07/poesia.html&gt;. Acesso em: 01 set. 2017