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Sobre Memórias da Poesia Popular

Projeto (CNPq/PPGCI-UFPB) vinculado ao Grupo de Pesquisa Leitura, Organização, Representação, Produção e Uso da Informação, coordenado pela professora Dra. Maria Elizabeth Baltar Carneiro de Albuquerque, docente e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba.

Poeta Bosquim Martins – Síntese biográfica

O poeta Bosquim Martinsnasceu no estado do Rio Grande do Norte.

Em sua obra, “Política e mortadela só dão desgosto e azia”, ele observa que:

Política é um caso sério
Na verdade um caso hilário
É um conto do vigário
Salpicado de mistério
Mas termina em adultério
Sob a luz clara do dia
Se fosse boa eu diria
Mas não se engane com ela
Política e mortadela
Só dão desgosto e azia.

FONTES CONSULTADAS

MARTINS, Bosquim. Cordel. In: RECANTO das letras. [S.l. : s.n.], [2011]. Disponível em:<http://www.recantodasletras.com.br>.Acesso em: Acesso em: 9 mar. 2017.

MARTINS, Bosquim. Perfil. In: RECANTO das letras. [S.l. : s.n.], [2011]. Disponível em:<http://www.recantodasletras.com.br>. Acesso em: 9 mar. 2017.

MARTINS, Bosquim. Política e mortadela só dão desgosto e azia. In: RECANTO das letras.[S.l. : s.n.], [2015]. Disponível em:<http://www.recantodasletras.com.br/cordel>. Acesso em: 9 mar.2017.

Poetisa Benedita Silva de Azevedo – Síntese biográfica

Escritora, poetisa, cordelista, haicaísta e ativista cultural, Benedita Silva de Azevedo é natural do município de Itapecuru-Mirim(MA) que possui a Praça da Biblioteca, próxima à Igreja Matriz.  Nasceu no mês mariano, precisamente no dia 10 do ano de 1944 (AZEVEDO, [20–], BENEDITA … [2014?]).

Benedita Azevedo é filha do dono de engenho Euzébio Alberto da Silva e Rosenda Matos da Silva. Formada em Letras, especialista em Educação e pós-graduada em Linguística. Residiu nas cidades de São Paulo (SP), Blumenau (SC), Itajaí (SC), indo para o Rio de Janeiro em 1987 e fixando-se na Praia do Anil, Magé (RJ) desde 1989.  Em 2003, recebeu o título de cidadã mageense (AZEVEDO, [20–], BENEDITA … [2014?]).

Em razão de sua produção literária e de seu reconhecimento como poeta, Benedita Azevedo tornou-se membro de diversas Academias, demarcando seu nome na imortalidade literária. Tem assento nas Academias: Pan-Americana de Letras e Artes (APALA), Ciências, Letras e Artes de Magé (ACLAM), Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes (AICLA), Ciências, Letras e Artes Lusófonas (ACLAL), Mageense de Letras (AML), Academia de Letras e Artes de Castro (ALAC), Academia Virtual Sala de Poetas e Escritores (AVSPE), Academia Internacional de Heráldica (AIH), Letras, Artes e Ciências Brasil (ALACIB), Academia Brasileira de Estudos e Pesquisas Literárias (ABEPL), (AZEVEDO, [20–];BENEDITA … [2014?]), entre outras instituições de características e finalidades semelhantes.

Como haicaísta, ganhou diversos prêmios, sendo um em primeiro lugar, da V Edição do Concurso Nacional de Haicai Caminho das Águas, em Santos (SP), no ano de 2011 e outras premiações no campo literário (AZEVEDO, [20–], BENEDITA … [2014?]).

Envolvidacom várias publicações, sendo que das 51 publicações, 26 são individuais, 2 emparceria com escritores, além das 23 antologias organizadas (AZEVEDO, [20–],BENEDITA … [2014?]).

FONTES CONSULTADAS

AZEVEDO, Benedita. Perfil.[S.l. : s.n.]. In: Recanto das Letras. [20–]. Disponível em:<http://www.recantodasletras.com.br>. Acesso em: 19ago. 2017.

BENEDITA Silva deAzevedo. [S.l. : s.n.]. In: Falando de trova. [2014?]. Disponível em:<http://www.falandodetrova.com.br/beneditaazevedo>. Acesso em: 19 ago.2017.

Poeta Augusto Laurindo Alves – Síntese biográfica

Augusto Laurindo Alves usava o codinome de Trovador Cotinguiba ou apenas Cotinguiba. Natural de Propriá (SE), nasceu a 5 de fevereiro de 1903 e seus pais se chamavam Manuel Laurindo Alves e Galdina Pinheiro Alves e residiam à Praça da Bandeira, 47 (LITERATURA …, 1986).

O Trovador Cotinguibaobteve o 98º lugar, com menção especial, no concurso realizado para homenagearo poeta, músico e compositor Catulo da Paixão Cearense, que compôs em parceriacom João Pernambuco (1914) a famosa canção Luardo Sertão. O resultado do concurso foi publicado em 12 de março de 1973, emSalvador, com responsabilidade editorial de Rodolfo Coelho Cavalcante,publicado com 100 glosas dos poetas concorrentes, com o mote:

Catullo nasceu brilhando
Como o "Luar do Sertão".

Assim glosouCotinguiba:

Arranquei no meu roçado
Do bisaco de repente
Uma rima consciente,
Alegria do meu fado ...
Do mote cadenciado
Para enaltecer PAIXÃO
Com a melhor convicção
Vou sair assim cantando:
Catullo nasceu brilhando
Como o "Luar do Sertão".

(ALVES, 1976)

Nos dados biográficosregistrados na contracapa de Alves (1976), podemos ler:

Possuidor de físico avantajado, jamais se furtou a trabalhos pesados;
dedicou-se também a vários ramos de comércio e atualmente, em sua
cidade natal, fabrica doces e exerce outras atividades. Poeta lírico e é
autor de inúmeros sonetos e de poemas sobre vários assuntos, entre os
quais se destaca O Rio São Francisco. Em prosa, escreveu Átomos de
minha vida, além de muitos cordéis.

O autor de Ímpetos do realismo (1962) escreveu ocordel Tubiba, o desordeiro e A mulher de Tubiba, o desordeiro:

TUBIBA, O DESORDEIRO
 
Tubiba nasceu falando,
Num dia de sexta-feira,
Com dez dias caminhou -
Assim me disse a parteira.
Com sete anos de idade,
Chegava em qualquer cidade,
Desmanchava qualquer feira.
 
O seu pai era um ferreiro,
Chamado Manoel Simão,
A mãe dele se chamava
Dona Francisca Gibão.
Por causa de uma panela,
O Tubiba foi a ela
Pra cortá-la de facão.
 
O pai de Tubiba disse:
- Não posso mais suportar
O destino desse monstro -
Já quis até me matar!
É favor sair de casa,
Se não eu toco-lhe a brasa!
Você tem que se acabar!
(ALVES, 1976, p. 3)
 
A MULHER DE TUBIBA, O DESORDEIRO
 
Na história de Tubiba,
Por um engano qualquer,
O escritor se esqueceu
De contar no seu mister
Como, em batalha medonha,
Tubiba encontrou Pitonha,
Para ser sua mulher.
 
Tubiba sempre dizia,
Que mulher era um enguiço -
Assim, tantas encontrasse,
Como ia dando sumiço.
Um dia caiu na vaia,
Porque encontrou a saia
Que quebrou o seu feitiço.
 
A mulher sempre aparece
Na vida do cangaceiro,
Como Pitonha, que veio
Acompanhando o roteiro
De uma existência sofrida,
Para figurar na vida
De Tubiba, o desordeiro.
 
Das mulheres que já vi,
Essa foi a mais danada!
Um dia, pegou a mãe
Para matá-la enforcada.
Como nada conseguiu,
Deixou a velha e fugiu
Pelo mundo, esfarrapada.
 
(ALVES, 1976, p. 3)

FONTES CONSULTADAS

ALVES, Augusto Laurindo, 1903. Átomos de minha vida. Propriá: Imp. Guarani, 1956.

ALVES, Augusto Laurindo. Ímpetos do realismo. Propriá: [s.n.], 1962.

ALVES, Augusto Laurindo. Lampião, o maior dos bandoleiros = Lampião, o maior dos bandoleiros.Propriá: Augusto Laurindo, [196-?].

ALVES, Augusto Laurindo. Tubiba, o desordeiro: A mulher de Tubiba, o desordeiro: A rainha que quis desfazer no que Deus fez. São Paulo: Luzeiro, 1976. 32 p. : 141 estrofes : sextilhas : 7 sílabas. (Coleção Luzeiro).

LITERATURApopular em verso: antologia. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed.Universidade de São Paulo; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. (Coleção reconquiste o Brasil. Nova série; v. 95).

Poeta Antônio Sena Alencar – Síntese biográfica

Natural de Assaré (CE), Antônio Sena Alencar nasceu em 28 de outubro de 1928. Filho de poeta, José Sena Alencar e de Dona Ana Maria Alencar, o cordelista Antônio Sena Alencar deixou a terra natal aos 10 anos, mudando-se para Balsas (MA) onde viveu até os 24 anos. Em 1952, mudou para outro município maranhense – Carolina e no mesmo ano seguiu para o estado de Goiás, onde se radicou. Foi no município de Filadélfia (GO) que Antônio Sena Alencar ingressou no Fisco Estadual. Casou-se com Desirée Souza Sena e teve sete filhos (BATISTA, 1976).

Repentista e cordelista, ele escreveu vários folhetos, todos em Goiás e publicados em São Paulo, pela Editora Prelúdio, a quem vendeu os direitos autorais (de 1959 a 1964) (BATISTA, 1976).

São doseu folheto O casamento do matuto solteirão estas estrofes:

Se o leitor nunca viu
Um palhaço do sertão
Analise este livrinho
Veja bem a sensação
Até é divertido
A vida e o casamento
Do matuto solteirão
 
Num recanto do sertão
Nasceu esse mandioqueiro
Onde criou-se isolado
Muito atrasado e grosseiro
Com vinte anos de idade
Nem tinha ido à cidade
Nem conhecia dinheiro
 
Chama-se Manoel
Nome que o fez cristão
Mas que pouco lhe servia
Este símbolo de ablução
Pois no meio onde vivia
Todo mundo o conhecia
Por matuto solteirão
 
Vivia o pobre matuto
Num casebre solitário
Em companhia da mãe
Sem recurso e sem salário
Ninguém ligava p'raêle
Fazia era troça dêle
No seu papel de otário
[...]
(ALENCAR, [19--?]b)

FONTES CONSULTADAS

ALENCAR, Antônio Sena. João das questões. São Paulo: Prelúdio, [19–?]a. 32 p.

ALENCAR, Antônio Sena. O casamento do matuto solteirão. São Paulo: Prelúdio, [19–?]b. 30 p.

ALENCAR, Antônio Sena. O preguiçoso que fêz pacto com o cão. São Paulo: Prelúdio, c1965. 31 p.

BATISTA, Paulo Nunes. Cordel em Goiás: Terceiro de uma série. Jornal O Popular, Goiânia, 15 fev. 1976. In: Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP). Disponível em: <http://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=cdu&pagfis=11246>. Acesso em: 21 ago. 2017.

Poeta Antônio Queiroz de França – Síntese biográfica

Cearense de Jaguaretama, Antônio Queiroz de França nasceu no dia 22 de junho de 1948. Esse cordelista, que fixou residência em Maracanaú (CE) em 1972, é membro da Sociedade dos Poetas e Escritores de Maracanaú (SOPOEMA), da Sociedade dos Amigos de Rodolfo Teófilo (SOCIARTE) e da Associação dos Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará (AESTROFE) (A LITERATURA…, [20–]; FRANÇA, 2010c; O MANIFESTO…, 2011).

Antônio Queiroz produziu e adaptou clássicos da literatura mundial à linguagem cordelística, sendo um poeta popular premiado no I Concurso Paulista de Literatura de Cordel e classificado no II em 2003 (FRANÇA, 2010c; O MANIFESTO…, 2011).

Autodidata, publica cordéis de denúncia ao capitalismo e em favor da transformação social com produção poética de qualidade técnica, atendendo à métrica e à rima próprias do cordel, e embasado historicamente; por isso, reconhecido como “grande poeta que coloca sua arte a serviço do povo” (A LITERATURA …, [20–]). Outra característica é a ilustração como elemento inovador em sua produção literária popular em formato de cordel.

Assim versou o Manifesto Comunista (1847) de Karl Marxe Friedrich Engels, narrando a motivação do manifesto, historiando o socialismoe a luta dos trabalhadores. De acordo com Menezes (2015), o poeta afirmou:“Escrevi desta forma para facilitar a assimilação por quem é menos politizado”.

O manifesto comunista em versos
 
Pensadores, sociólogos,
Cientistas sociais
Preocupam-se com o Homem,
Esse “rei dos animais”,
Que cultiva o egoísmo.
Da ética, não lembra mais.
 
Devido à desigualdade,
Estudam a economia,
E chegam à conclusão
Que a poucos privilegia.
Sem o mínimo pra ter vida,
Sofre a grande maioria.
 
Fizeram a divisão,
Após “estudos profundos”:
“Primeiro mundo”, dos ricos;
“Terceiro”, dos moribundos.
Os pobres, escravizados
Por burgueses dos dois mundos.
 
Um grande gênio alemão,
E um outro camarada,
Prepararam uma tese,
Da humanidade estudada,
E descobriram a causa
Da fome verificada.
[...]

(FRANÇA, 2010, p. 11)

Em O beato Zé Lourenço e o massacre do Caldeirão, França (2011b) cumpre o que é próprio do cordel: perpetuar fatos e personagens históricos no imaginário popular.

INSISTO MAIS UMA VEZ
 
Em pedir que os leitores
Leiam a saga do povo
(Suas lutas, seus valores).
Apesar de sermos mais
Do que os nossos rivais,
Somos sempre perdedores.
 
Lembro o menino e o boi,
Cuja metáfora contém
A pura realidade:
Menino puxa, o boi vem!
Esse domínio acontece
Porque o boi não conhece
A enorme força que tem.
 
Outra vez uso a caneta
Para escrever sobre a pena
Que esse Estado, à revelia,
A todo o povo condena,
Assim age a autoridade:
Se quisermos liberdade
As armas entram em cena.
 
Assim foi lá em Canudos,
Desde a lusa invasão,
E no reino dos Palmares,
Balaiada, em Maranhão ...
Neste trabalho revivo
Parte de um triste arquivo
Da história do Caldeirão.
 
No Estado do Ceará,
Na cidade de Juazeiro,
Aonde vai romaria
Do Brasil e do estrangeiro,
Da Paraíba, um José,
Atraído pela fé,
Foi um famoso romeiro.
[...]

(FRANÇA, 2011b, p. 11-13)

Preocupação inerente dopoeta em divulgar grandes personagens, poetizou o pensamento do comandante daintegração latino-americana Ernesto Guevara de La Serna.

As aventuras do guerrilheiro Che Guevara 
 
Companheiros desejosos
De justiça social,
Quero lembrar nestes versos
Um alguém especial,
Que morreu pela defesa
Da divisão da riqueza
E da paz universal.
 
Preservando o ser humano,
Incutindo a consciência
De que por fraternidade
Reclama nossa existência,
Ou o homem muda a ideia,
Ou o fim dessa odisseia
Nega a nossa inteligência.
 
É causa de vida ou morte,
Além de ideologia,
Que nós lutemos por isso,
Pra mudar a economia,
Porque, na realidade,
Como anda a humanidade,
Do fim está perto o dia.
[...]

(FRANÇA, 2010a, p. 13)

FONTES CONSULTADAS

A LITERATURA de cordel de Antônio Queiroz de França a serviço da revolução. [S.l.: s.n]. In:Inverta. [20–]. Disponível em:<https://inverta.org/jornal/edicao-impressa/482/cultura/a-literatura-de-cordel-de-antonio-queiroz-de-franca-a-servico-da-revolucao>.Acesso em: 17 set. 2017.

FRANÇA, Antônio Queiroz de. A história da heroína Olga Benário: literatura de cordel. Brasília:Ensinamento, 2011a. 120 p.

FRANÇA,Antônio Queiroz de. As aventuras do guerrilheiro Che Guevara: literatura de cordel. Brasília:Ensinamento, 2010a. 120 p.

FRANÇA,Antônio Queiroz de. O beato Zé Lourenço e o massacre do Caldeirão. Brasília: Ensinamento, 2011b.108 p.

FRANÇA,Antônio Queiroz de. O cavaleiro da esperança e a coluna Prestes. Brasília: Ensinamento, 2011c. 119 p.

FRANÇA,Antonio Queiroz de. Os três anciãos: literatura de cordel. Brasília: Ensinamento, 2010b. 84 p.

FRANÇA,Antônio Queiroz de; GERALDINO, Rômulo (Il.). O manifesto comunista em versos.Brasília : Ensinamento, 2010c. 83 p.

MENEZES, Cynara. O manifesto comunista em cordel. [S.l. : s.n.]. In: Socialista morena. 9 jun. 2015.Disponível em: <http://www.socialistamorena.com.br/o-manifesto-comunista-em-cordel>.Acesso em: 17 set. 2017.

O MANIFESTO comunista em cordel. In: Plaggiado.26 fev. 2011. Disponível em:<http://plaggiado.blogspot.com.br/2011/02/o-manifesto-comunista-em-cordel.html>.Acesso em: 17 set. 2017.

Poeta Antônio Eugênio da Silva – Síntese biográfica

O cantador e cordelista do brejo paraibano Antônio Eugênio da Silva nasceu em 1907. Não se sabe ao certo em que localidade, podendo ter sido em Chã de Campestre, Areia, ou em Esperança. Morou em Solânea (PB), remota Chã do Moreno. (ANTÔNIO …, 2008).

De suas produçõespoéticas reproduzimos os versos cordelísticos conhecido em todo o Brasil:

Valdemar e Irene 
 
Vou contar uma história
d’uam moça e um rapaz,
um caso recente que
deu-se em minas gerais.
O leitos preste atenção
amor falso o que é que faz.
 
Sempre é triste o resultado
da moça que ama dois,
porém deixando o primeiro
pode amar outro depois.
A que fizer coleção
essa a muito se dispôs.
 
Me refiro a um rapaz
que fez uma ação grosseira,
o qual moço se chamava
Valdemar Melo Moreira.
Foi isso em Juiz de Fora,
uma cidade mineira.
 
Valdemar desde criança
era ativo e inteligente,
seu pai era um alfaiate,
um pobre, porém decente,
botou Valdemar na escola,
ele aprendeu de repente.
 
Tinha força de vontade
estudava noite e dia
e logo tirou concurso
sendo em datilografia,
faltou pouco para ele
formar-se em engenharia.
 
Porém, por sua desdita
o seu pai adoeceu,
ele saiu do colégio
não findou o estudo seu.
O pai gastou o que tinha
com três semanas morreu.
[…]

Moreira (2015) explicaque é a musicalidade e metrificação do verso que criam expectativas danarrativa cordelística, o que emociona o leitor e demonstra esta carga emotivapor meio do cordel O Cavaleiro Roldão,de Antônio Eugênio da Silva:

- Em nome de Deus rogamos
a vossa real majestade
pela paz e a virtude
peço-vos por caridade
pra perdoar um agravo
de responsabilidade.
 
Com estas prerrogativas
o rei ficou comovido
disse: levantem e declarem
que será tudo atendido
dou-vos a palavra de honra
de fazer qualquer pedido:
 
- Senhor, vimos vossa irmã
em triste situação
mora ali numa caverna
há anos morreu Milão
é mãe daquele menino
o qual chama-se Roldão.
 
O rei quis arrepender-se
porém tinha garantido
mandou buscar a irmã
e o sobrinho destemido
embora ela não fosse
o que dantes tinha sido.
 
Nos pés do Imperador
ficou ela ajoelhada
pediu perdão ao irmão
da sua culpa passada
disse-lhe o Imperador
tu já estas perdoada.

FONTES CONSULTADAS

ANTONIO Eugênio da Silva. In: SILVA, Gonçalo Ferreira da (Org.). 100 cordéis históricos segundo a Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Mossoró: Queima-bucha, 2008.  p. 323-327.

MOREIRA,Alam Félix dos Santos. O Universo-cordel versando sobre o verso. In: MOSTRA DEINICIAÇÃO CIENTÍFICA, 4., 2015, Guanabi/Bahia. Anais … Guanabi: IFBaiano. Disponível em: <https://www.micifbaiano2015.com/anais/artigo/85>.  Acesso em: 12 set. 2017.

SILVA, Antonio Eugênio da. Valdemar e Irene. [S.l. : s.n.], [s.d.].

Poeta Antônio Batista Vieira – Síntese biográfica

Em Literatura popular em verso, publicado em 1986, encontramos a informação de que Antônio Batista Vieira, cearense, residiu na cidade de Juazeiro do Norte. O poeta costumava andar nas feiras livres do sertão nordestino onde armava seu serviço de alto-falantes para cantar seus versos e vender seus folhetos.

Costa (1998), em Presença de Frei Damião na literatura decordel, afirma que o poeta popular era mais conhecido como Antônio Batista.

FONTES CONSULTADAS

COSTA, Gutenberg. Presença de Frei Damião na literatura de cordel. Brasília: Thesaurus, 1998. Antologia.

LITERATURApopular em verso: antologia. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed.Universidade de São Paulo; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. (Coleção reconquiste o Brasil. Nova série; v. 95).

Poetisa Antônia Albuquerque – Síntese biográfica

Cordelista paraibana, Antônia Albuquerque é natural de Araçagi (PB). Poetisa de alma nordestina e artista das letras que ama ler e escrever, habilidade desenvolvida pelas leituras que permitem viagens por meio dos sonhos e da imaginação (ALBUQUERQUE, [2013?]).

Casada, mãe de três filhas, descendente de agricultores, frequentemente retorna às raízes por considerar essencial voltar de onde começou, reviver o seio e o ambiente familiares, checar memórias, marcar encontro consigo mesma. Passeio de volta de quem deixou a cidade natal para residir em outro Estado, Rio de Janeiro. O que pensa do itinerário ao passado? “Para mim são os dias mais felizes da vida, por estar tão pertinho das pessoas que me fazem tão bem.” (ALBUQUERQUE, [2013?]).

Seo gosto musical diz muito da pessoa, podemos afirmar que Antônia é romântica,pois gosta de músicas com letras que falem de amor. Tudo o que é natural aemociona, por isso adora passear e curtir a natureza, “[…] ir à praia à noite,ver a lua, as estrelas. Sou totalmente apaixonada por esse lazer, me transmitepaz, me traz inspiração, acalma a alma, acalenta meu coração” (ALBUQUERQUE,[2013?]).Seu cordel Alma nordestina resulta do amor àsorigens e ressignifica memórias, matéria-prima da sua identidade.

Alma nordestina
 
Para iniciar, sou cabra da peste
Que só quer um dedo de prosa,
Que falará de uma nação valente
Que encontrei em meu nordeste
Terra amada,sofrida e formosa
Com muitos talentos e brava gente ...
 
Terra de gibão e chapéu de couro,
Peixeira, jerimum e vaquejada,
Carne de sol,buchada e pamonha,
Mas que sempre supriu de ouro
O resto do Brasil,terra tão amada,
sem jamais semostrar tristonha.
 
Manteiga de garrafa, frango a cabidela,
Sarapatel, milho cozido e cocada,
Pé de moleque, cuscuz e arroz doce,
Compõem a festa junina quando amarela
A vegetação desta terra tão amada,
Água dividida por eles como se de todos fosse.
 
Que se esquece desta vida injusta e ferina,
Cumprindo as tradições de seus ancestrais,
Se lança homenagear todos os santos,
Vestindo-se de laços e fitas para as festas juninas,
Esquecendo-se de suas lamúrias e de seus ais,
Bailando felizes por todos os recantos ...
 
Como olvidar da buchada de bode, da macaxeira,
Da paçoca de carne,do queijo e do baião de dois,
Do beiju e da tapioca que hoje integram o país,
Lembrando que somos brasileiros sem fronteiras,
Todos à espera do amanhã que virá depois,
Provando que brotamos de uma única raiz.
 
Sua história a todos em muito encanta
Em cada canto,quando lhe cantam
No peito de cada singela, como esta, criação
Quando borbulha em minhas veias a admiração
Por suas terras,mesmo secas e rachadas,
Mas cheias de esperança dessa gente arretada.
 
Hoje, comigo,carrego no fundo de meu peito,
Por ela, tão boas e saudosas lembranças
Deste mundo encantado, repleto de poesia,
Vivido ao seu lado e com profundo respeito,
Canto as aventuras vividas em criança,
Registrando em versos esta singela alegria.
 
Tenho alma nordestina, também sou cabra da peste,
Filha de agricultores que lavraram a terra
E mesmo morando distante, em outro estado,
Cultivo minha raiz com brio e tenho amado
Este meu recanto eque ninguém conteste,
Tenho imenso orgulho de ser do nordeste.
 
(Antônia Albuquerque, 2015)

FONTES CONSULTADAS

ALBUQUERQUE,Antonia. Alma nordestina. [S. l. : s. n.]. In: Recantos das letras. 10 out. 2015. Disponível em: <http://www.recantodasletras.com.br/cordel>.Acesso em: 10 ago. 2017.

ALBUQUERQUE,Antonia. Perfil. [S.l. : s.n.] In: Recantodas letras. [2013?]. Disponível em:<http://www.recantodasletras.com.br>. Acesso em: 10ago. 2017.

Poetisa Anna Célia Motta – Síntese biográfica

Anna Célia Motta é professora de literatura e línguas em São Paulo e se autointitula “paulistana de mineirices” por ser contadora de “causos”. Por meio de histórias, ela nos convida a entrar no seu mundo encantado, amante do cotidiano, da vida rica em detalhes e sabedoria. Desfruta da família, dos alunos e das coisas belas da vida, como Monet e boas leituras (MOTTA, [2012?]).

Seos “causos” dão asas à alma, sua linguagem poética de classe temática religiosanos faz “cirandar”.

Ciranda do diabo
 
Deus nos deu a vida.
Mas o diabo veio atrás.
E nos deu a dura lida.
Então na pressa,
Nem percebemos e
A trocamos,
pelas filas,
pela moeda bandida,
e
Viramos vítimas
dos assaltos,
da violência,
do desafeto,
e desamor,
do incesto
e pedofilia,
das injúrias,
do destemor,
das celas encardidas,
do cansaço,
e da preguiça,
da sede
e fome,
da distração,
do sossego,
da descrença,
da solidão,
da impaciência
e revolta,
da cegueira,
da vaidade,
do descaso,
do egoísmo,
do superego,
dos excessos
de um lado,
da escassez
do outro,
da falta de boa vontade,
pela morte do amor.
Para a alegria do capeta
que sentado está.
Esperando que o povo todo
Logo venha a se lascar.
E ele esperto e enganador,
Os cacos venha apanhar.
Mas o caboclo
muito astuto,
A solução foi procurar.
Na luz divina
que a todos pode salvar.
 
(MOTTA, 2015)

FONTES CONSULTADAS

MOTTA, Anna Célia. Perfil. [S.l. : s.n.]. In: Recantodas letras. [2012?]. Disponível em: <http://www.recantodasletras.com.br>. Acesso em: 8 ago. 2017.

MOTTA, Anna Célia. Ciranda do diabo. [S.l. : s.n.]. In: Recanto das letras. 28 mar. 2015. Disponível em:<http://www.recantodasletras.com.br>. Acesso em: 8 ago.2017.

Poeta Andrelino da Silva – Síntese biográfica

Andrelino da Silva, mais conhecido como Lino Sapo, é filho de José Anderson da Silva e Damiana Lúcia da Silva. Nasceu em Riachuelo no estado do Rio Grande do Norte, no sexto dia do primeiro mês do ano de 1981. Casado com Larissa Melo, escreveu o primeiro cordel em 2008, produção intitulada Melhor um Roçado do que Casar com Mulher Feia (FORMULÁRIO, 2016).

O poeta aponta como fontes inspiradoras a vida ea sua região. Poeticamente, autobiografa-se em Lino por Lino: o poeta em poesia (SAPO, 2016).

Desculpe-me meu povo
esse jeito de eu falar
Sou matuto do sertão
Num sei me apronunciar
Perdoem a simplicidade
A vida de humildade
Que vou agora apresentar
 
Nasci na Cachoeira do Sapo
La nas brenhas do sertão
Num grupo abandonado
A qual tenho gratidão
Por abrigar minha família
Retirantes durante o dia
Em busca de teto e pão
 
Lá o meu primeiro lar
Após longa caminhada
Uma família formada
Nas ruínas da morada
Pai, mãe e minha irmã
Eu nasci quase manhã
Sob o canto da passarada
 
Era uma terrinha nova
Abraçando os retirantes
Que há tempo buscava
Um lar aconchegante
Essa sem porta e janela
Sem tranca nem tramela
Já nos servia bastante
[...]

FONTES CONSULTADAS

SILVA, Andrelino da. Formuláriorespondido online no blog Memórias daPoesia Popular em 20/06/2016. Disponível em: <https://memoriasdapoesiapopular.com.br>.

SAPO, Lino. Cordel da felicidade. In: RECANTO das letras. [S.l. : s.n.], 28nov. 2013. Disponível em:<http://www.recantodasletras.com.br>. Acesso em: 15 maio2017.