Poeta Cândido Simões Canela – Síntese biográfica

Poeta trovador, “cantor da rua”, cordelista e compositor de música popular brasileira, Cândido Simões Canela, que usou o pseudônimo de Espiridião Santa Cruz, é natural de Montes Claros (MG), onde nasceu em 22 de agosto de 1910 e faleceu aos 82 anos, em 7 de março de 1993.  O filho de Antonio Canela e de Luzia Simões Canela viveu toda a infância na fazenda Vargem Grande. O escoteiro e seresteiro participou do movimento revolucionário de 1930 (AZEVEDO, 1978; CENTENÁRIO …,2010).

Membro fundador da Academia Montes-clarense de Letras, ele é citado na obra Literatura Popular do Norte de Minas, de Teófilo de Azevedo, a qual apresenta Cândido Canela como um dos “[…] nomes mais expressivos da genuína literatura informativa, de cordel de Minas Gerais” (1978, p. 17).

À Praça Honorato Alves, mais conhecida como Praça da Santa Casa, Cândido Canela residiu com sua esposa Laurinda Prates de Souza Canela, com quem teve o filho, também poeta, Reivaldo Simões Canela (CÂNDIDO…, 2010; CENTENÁRIO…, 2010).

Frequentou a escola normal sendo o único homem da turma. O pedagogo não realizou o sonho do senhor Antônio Canela que desejava que o filho fosse médico. Mas Cândido foi um comunicador diversificado: radialista, jornalista e editor. Na década de 40, editou o jornal humorístico O Gangorra. Nos anos 50, dirigia e apresentava o programa Alma Cabocla, na ZYD-7, onde também se apresentou com Antônio Rodrigues, com quem formou a dupla caipira Chico Pitomba e Mané Juca. Foi jornalista colaborando por muitos anos na Gazeta do Norte e no Jornal Montes Claros (CENTENÁRIO…, 2010).

Espiridião Santa Cruz escreveu cartas publicadas na Gazeta do Norte, cuja prosa epistolar de um suposto montes-clarense, residente de São Paulo há mais de 30 anos, fez tanto sucesso, que muitos leitores afirmavam ter conhecido Esperidião (CENTENÁRIO…, 2010).

Cândido Canela foi tabelião do Cartório do 1º Ofício por quase 50 anos e vereador por dois mandatos de Montes Claros (CÂNDIDO …, [20–]; CENTENÁRIO …, 2010).

Humanista, representou as virtudes, como a honestidade, por meio da vida simples do homem do campo. Seus muitos poemas foram musicados pelo amigo e admirador Teófilo de Azevedo Filho, a exemplo de Saracurinha Três Potes e Ternos Pingos de Saudade. Com este último, foi vencedor, em primeiro lugar geral por melhor melodia, letra e interpretação, no I Festival de Música Sertaneja (1978) promovido pela Rádio Record de São Paulo. A primeira composição foi gravada pelas duplas caipiras Tonico e Tinoco e Pena Branca e Xavantinho (CÂNDIDO …, [20–]; CENTENÁRIO …, 2010).

Azevedo cita o escritor Nelson Viana que assim qualificou Cândido Canela: “É notável contista, cronista e poeta, filiado à escola de Catulo da Paixão Cearense” (AZEVEDO, 1978, p. 18). Aborda a cultura popular em seus contos, causos e versos. Registrou escassez da energia elétrica em Montes Claros, agravada pela falta de chuvas em 1953, quando no mês de julho as águas do Rio Santa Marte baixaram:

E pode quem quiser chamar-me louco,
Mas a falta de luz me faz contente.
De que serve outra luz senão alua,
Se vivo meu passado no presente?
 
De que serve outro céu senão aquele
Que cantei, quando moço,apaixonado?
De que serve outro céu senão aquele
De estrelas loiras todo pontilhado?
[…]
(AZEVEDO, 1978, p. 107)

Autor de Lírica e Humor do Sertão (1952) e Rebenta Boi (1958)

LÍRICA E HUMOR DO SERTÃO

Morena, bela, iscuta estes meus versos,
ouve, Cabocla, esta triste canção,
qu'eu iscrivi com a pena da sodade
e com a tinta roxa da paixão.

Inda se alembro da premera vez
qu'eu te incontrei na Igreja da Maiada,
inté pensei qui fosse a Virge Santa
quitava cá imbaxo ajueiada.

E foi ali, Caboca feiticera,
eu ti oiei, vancê tomém me oiou.
E nest'ora ganhei seu coração,
meu coração vancê tomem ganhou.

Nós dois se amemo quatro ano afio,
nesta fazenda, aqui neste Sertão,
inté que um dia de infilicidade
trouxe pra nós triste disilusão.

E como a Pomba Juriti sodosa,
qui o caçadô matou s cumpanhera
varei o mundo a fora sem distino,
quage trint'ano quage a vida intera.

Sufri na Terra grandes disventura,
ai sempre percurando sempre tiisquecê,
mais cada dia e noite qui passava
mais eu quiria vortá pra vancê.

Aqui cheguei, Morena, nesta Terra,
Já tô de vorta, aqui neste Sertão,
véio acabado, fraco e sem dinhêro,
mais tenho novo ainda o coração.

Mais se vancê, Morena, inda quisé,
este caboco véio e sem valia,
abre esta porta e vem me abraçá,
pois eu ti quero mais do quiria.

E ela uviu estes meus versos triste
Esta viola, esta triste canção.
Abriu a porta e veio me abraçá,
e junto ao meu botou seu coração.

(CÂNDIDO..., 2010)
 
 REBENTA BOI

O amor qui a gente teve
de moço fica guardado
pra toda vida no peito,
cum sete chaves trancado.

Sodade, frô da lembrança
matrera recordação,
qui todo mundo curtiva,
no vaso do coração.

O amor é qui nem pinga
que a gente mesmo lambica
quanto mais o tempo passa,
mais gostosa a pinga fica.

Não chore as ruga da face
o tempo é justo, ele é franco
consola com meu cabelo
todo pintado de branco.

(CÂNDIDO..., 2010)

FONTES CONSULTADAS

AZEVEDO, Téo. Literatura popular do norte de minas: a arte de jogar versos. São Paulo, SP: Globo, 1978. 128 p.

CÂNDIDO Canela – Poemas. [S.l. : s.n.]. In: Descortinando as letras. 28 jul. 2010.Disponível em: <http://descortinandoasletras.blogspot.com.br/2010/07/candido-canela-poemas.html>.Acesso em: 27 set. 2017.

CÂNDIDO Canela. [S.l. : s.n.]. In: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.  [20–]. Disponível em:<http://dicionariompb.com.br/candido-canela>. Acesso em: 27 set. 2017.

CENTENÁRIO de Cândido Canela. [S.l.: s.n.]. In: Descortinando as letras. 28 jul. 2010.Disponível em:<http://descortinandoasletras.blogspot.com.br/2010/07/centenario-de-candido-canela.html>.Acesso em: 27 set. 2017.

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