Poeta Aderaldo Ferreira de Araújo – Síntese biográfica

Aderaldo Ferreira de Araújo (24/06/1878 – 29/06/1967)

Natural da cidade do Crato, na região do Cariri, sul do estado do Ceará, nasceu em 24 de junho de 1878 e faleceu em 29 de junho de 1967. Em sua trajetória, três duros episódios marcaram profundamente sua vida e contribuíram para mudar seu destino: a morte do pai, a perda da visão e a morte de sua progenitora. A perda da visão foi o segundo episódio trágico de sua história, ocorrido logo após o falecimento de seu pai, que, segundo Aderaldo (1994, p. 15), ocorreu no dia 10 de março de 1896, quando tinha 18 anos, uma “[…] morte macia. Veio chegando devagarinho até levar o melhor alfaiate e o melhor pai que conheci”.

Órfão de pais e acometido de cegueira, após tomar um copo d’agua, precisava buscar novas alternativas para sobrevivência, como narra em seu Livro “Eu sou o cego Aderaldo”:

[…] como é que se conta a história de um moço que ficou cego porque tomou um copo d’água? Que mal pode fazer um copo d’água? Por que eu haveria de cegar por isso apenas? Eu havia pedido água para beber na casa defronte à nossa: – Dona, me dê água… Quando devolvia o copo com um “muito obrigado”, senti aquela dor horrível, um arrocho querendo sair da minha cabeça. Meus olhos ficaram logo turvos.

Apertavam-se, doíam, como se estivessem cheios de espinhos de cacto. – Meu Deus! Foi o que pude dizer. Até aí, ainda enxergava. Eu podia ver o mundo, as coisas. Sabia o que era uma manhã de sol, um dia de chuva, o chegar da noite… Mas depois disso, ai meu Deus! Meus olhos se fecharam para sempre (ADERALDO, 1994, p. 15-16).

Todavia, para o poeta ainda em descoberta, como seria possível cantar e decorar poemas, como confessara no livro já citado: “como pudera decorar fixar na mente a aquela estrofe? Imaginei então que, naquela estrofe, estava a mão poderosa de Deus, a dizer-me que meu destino era cantar” (ADERALDO, 1994, p. 16-17). Tentativa que não lhe faltou incentivo por parte de sua mãe, que dizia: canta filho… um dia o pessoal te compreenderá!” (ADERALDO, 1994, p. 17). Pôs-se a cantar seu primeiro verso: “Oh! Santo de Canindé!/Que Deus te deu cinco chagas,/Fazei com que este povo/Para mim faça as pagas;/Uma sucedendo às outras/Como o mar soltando vagas!”. Dando início, assim,  à sua nova carreira.

O sofrimento causado pela morte repentina de sua progenitora fez de Aderaldo um novo resiliente, pois buscou apaziguar o sofrimento por meio da poética cantada, destacando-se entre suas primeiras composições: “As três lágrimas”, dedicada à sua mãe.

[…] eu ainda era pequeno/mas me lembro bem/de ver minha pobre mãe em negra viuvez/ meu pai jazia morto/ Estendido em um caixão/Pela primeira vez!// E a pobre minha Mãe/Daquilo estremeceu:/De uma moléstia forte/A minha mãe morreu./Fiquei coberto de luto/E tudo se desfez/E eu chorei então/pela segunda vez// Então, o Deus da Glória,/O mais sublime artista,/Decretou lá do Céu,/Perdi a minha vista./Fiquei na escuridão,/Ceguei com rapidez/E eu chorei então/pela terceira vez.// Meus prantos se enxugaram./Das lágrimas que corriam/Chegou-me a poesia/E eu me consolei./Sem pai, sem mãe, sem vista,/Meus olhos se apagaram;/Tristonhos se fecharam/E eu nunca mais chorei (ADERALDO, 1994, p. 25).

O Cego Aderaldo em sua poética associava alguns sentimentos de pertença ao lugar de sua origem e às terras sertanejas, representando o melhor das características do povo do Nordeste com fortes características românticas e dramáticas, além de revelar-se um refinado declamador de poemas épicos, tornando-se um dos mais significativos representantes da poética e cultura nordestinas percorrendo o Nordeste, especialmente todo o Ceará, partes do Piauí e Pernambuco, aliando às suas viagens invencionices, a exemplo do uso do gramofone para divertir os ouvintes.

Com uma fama cada vez maior, especificamente após a famosa peleja com Zé Pretinho (maior cantador do Piauí), após sua permanência neste e em outros estados, resolveu ir rumo ao Juazeiro do Norte para conhecer Padre Cícero que o recebeu pessoalmente. Posteriormente, encontra Lampião.

Suas atividades e poéticas tornaram-se uma lenda para a poética regionalista. De coração valente, solteiro, adotou 26 filhos ou 24 filhos, não se tem certeza exata dos números e os ensinou a tocar, fazendo com que se apresentassem em algumas ocasiões.

FONTES CONSULTADAS

ADERALDO, C.; CAMPOS, E. (Orgs.) Eu sou o Cego Aderaldo. Apresentação Raquel de Queiroz. São Paulo: Maltese, 1994.

BLOG coisas nossas. [S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http://blogcoisasnossas.blogspot.com.br/2009/09/cego-aderaldo.htm>. Acesso em: 14 jul. 2014.

CEGO Aderaldo: biografia, causos e presepadas por ele mesmo.[S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http://www.jornalde poesia.jor.br/cego1.html>. Acesso em: 14 jul. 2014.

EENCICLOPEDIA Itaú Cultural. [S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http://itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_lit/ index.cfm?fuseaction=biografias_texto&cd_verbete=5099&cd_item=35>. Acesso em: 14 jul. 2014.

LIMA, F. P. F. A produção do espaço sagrado em Quixadá – Ceará:estudo das interrelações econômicas, socioculturais e o lugar. 2012. 126 f. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Rio Claro, SP. 2012. Disponível em: <http://base.repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449 /95690/lima_fpf_me_rcla.pdf?sequence=1>. Acesso em: 14 jul. 2014.

NOGUEIRA JR, A. Projeto Releituras.  [S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http://www.releituras.com/cegoaderald o_menu.asp>. Acesso em: 14 jul. 2014.

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