Poeta Edgar Ramos de Alencar – Síntese biográfica

O filho de João de Alencar Araripe e Antônia de Faria Ramos (Dona Nenê Ramos), Edgar Ramos de Alencar, que adotou o nome artístico de Edigar de Alencar, foi um homem múltiplo – contador, cordelista, crítico, ensaísta, jornalista, memorialista,musicólogo, pesquisador da música popular brasileira, poeta, teatrólogo e trovador. Natural de Fortaleza (CE), nasceu no dia 6 de novembro de 1901 ou 1908,e faleceu no Rio de Janeiro (RJ) no dia 24 de abril de 1993 (EDIGAR …, [20–], HORTENCIO, 2014, MORAES, 2011).

Sua mãe era professora primária e foi com ela que obteve os primeiros conhecimentos gramaticais e matemáticos, e desde criança demonstrou disposição para as letras. Em seu livro, A Modinha Cearense (1967),escreveu a seguinte dedicação: “À memória de Nenen Ramos, minha mãe, que me ensinou a ler, sofrer e cantar”.

Aos 24 anos, publicou seu primeiro livro de poesias intitulado Carnaúba (1932). As demais obras poéticas são: Mocorocó (1942); Cantigas de Enleio e Desencanto (trovas, 1954); Galé Fugido (1957); Poesia Quase Perdida (1973) e Claridade e Sombra de Poesia (1984) (EDIGAR …, [20–], HORTENCIO, 2014).

Ainda jovem foi para o Rio de Janeiro (1926) com o objetivo de completar os estudos. Tendo frequentado a Escola de Comércio Fênix Caixeiral (Fortaleza – CE), foi diplomado contador.No Rio, estudou Administração e Finanças, curso concluído na Faculdade de Ciências Econômicas na primeira universidade federal do Brasil, denominada Universidade do Brasil (1929) (EDIGAR …, [20–], HORTENCIO, 2014).

Para Moraes (2011), o jornalista e cronista Edigar de Alencar ergueu a historiográfica e memória da música popular, pois escrevia especialmente sobre música e carnaval. A obra O Carnaval Carioca através da Música “atingiu cinco edições, esgotadas rapidamente” (HORTENCIO, 2014).

Na obra Claridade e Sombra na Música do Povo(1984), Edigar registrou a embolada nordestina no Rio:

A primeira embolada ouvida no Rio, - “Cabocla de Caxangá” -, com
melodia de João Pernambuco e versos de Catulo, foi sucesso
verdadeiro em 1913 a 1914. Depois, devido talvez ao êxito da
composição nordestina a que os versos catulanos deram grande
notoriedade,em 1916-1917, o trio Foca-Abigail-Moreira então em
destaque começou a explorar a música do Nordeste […]
(ALENCAR, 1984, p. 161)

Na obra citada acima, Edigar explica que o conjunto vocal e instrumental formado no Recife (PE), Turunas da Mauricéia, trouxe para o Rio de Janeiro reforço do ritmo nordestino, em 1927, quando várias emboladas foram cantadas e uma delas, Pinião, Pinião, foi um grande sucesso do carnaval de 1928, quando alteraram seu ritmo e foi considerada samba.

A paixão pela música é extensiva aos versos, pois Edigar entende que estes se eternizaram por meio da música (modinha).

Nunca me saíram da memória as modinhas que ouvi na minha
meninice. Minha mãe, talvez para afugentar as dificuldades e os
transtornos de uma existência pobre e duríssima, cantava todos os
dias.  […]Era, assim, uma serenata doméstica. Ainda guardo nos
ouvidos sons dolentes e palavras quentes das modinhas que entoava,
muitas vezes buscando enganar-me a fome […] (ALENCAR, 1967, p. 11-12)

Outra paixão nacional,o futebol, também foi foco da veia literária de Edigar que escreveu Flamengo: força e alegria do povo(1970). Ainda escreveu para o teatro de revista o espetáculo Doce de Coco, representado no Teatro São José pela companhia Alda Palm Garrido e Pinto Filho. Crítico de teatro,presidiu o Ciclo Independente dos Críticos Teatrais (HORTENCIO, 2014, MONTEIRO, 2011, MORAES, 2011).

Edigar de Alencar,Carioca Honorário, foi um dos fundadores da Academia Cearense de Ciências,Letras e Artes do Rio de Janeiro, ocupando a cadeira n° 4, cujo patrono é Américo de Queirós Facó, poeta e jornalista cearense que viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro (HORTENCIO, 2014).

O musicólogo Edigar de Alencar, em 1982, publicou o cordel biográfico em tributo a Pixinguinha,intitulado: Vida e Morte Gloriosa do Grande Músico Negro Pixinguinha (MORAES, 2011). Neste folheto, Edigar apresenta uma nota essencial:

Este folheto representa dupla homenagem de um autor que sempre se
mostrou amigo entusiasta da literatura de cordel e da sua pureza
original. Homenagem a Pixinguinha, negro genial, cuja fama parece
não haver chegado aos menestréis dos sertões nordestinos, à admirável
e tão sacrificada quão heroica poesia popular dos sertões.
Adotando não só seu feitio básico e imune das influências citadas,
como até sua estrutura material tão rudimentar quanto autêntica,
não quis como escritor invadir uma seara que sempre desejei não sofresse
os agravos de participação chamada (impropriamente, aliás) de
eruditas. Assim o demonstrei em dezenas de artigos de imprensa a
respeito da matéria. Pode parecer, agora, que sou incoerente. Não sou.
Não pretendo figurar como poeta popular, pois este nasce feito,
não se faz. Na eventualidade, repito, este trabalho é mais um preito
sincero à estoica e brava literatura em verso, que eu estimo para
sempre invulnerável aos assaltos dos espertalhões que tentam deturpar
em beneficio próprio. É assim. (ALENCAR, 1981)

Do cordel Vida e Morte Gloriosa do Grande Músico Negro Pixinguinha (1982), extraímos algumas estrofes, em que nas últimas podemos verificar a assinatura do poeta por meio de acróstico, declaração de autoria.Vejam:

A 27 de abril
do ano noventa e oito
nascia na Piedade
um menino vivo e afoito,
que logo que sentiu fome
chorou pedindo biscoito.
 
Negrinho de venta chata,
não vou dizer que era feio,
também bonito é bravata
e aqui não faço arrodeio,
o menino era levado,
vidrado da mãe no seio.
 
Seu pai, um homem de bem:
Alfredo Rocha Viana,
que gostava mais de música
que macaco de banana;
sua mãe, Dona Raimunda
na cozinha era bacana.
 
As avós do molequinho:
Pacífica era a materna,
Ilduviges, africana
vinha da linha paterna,
era mulher dedicada,
pelos netos a mais terna.
 
O casal cheio de filhos,
de prole não tinha medo,
chegaria a uma dezena
que o pai não dormia cedo ...
E foi ele que exclamou:
- Esse aí vai ser Alfredo!
 
- Poderia ser Alfredinho -
disse a mãe, mas dando o sim,
Ilduviges não vacila
e o chama de Pizindim,
que era mesmo que chamar
anjo do céu, serafim.
 
Pizindim, menino bom,
confirmaria o apelido,
e logo pela família
ficou sendo o mais querido,
caçula nem no outro mundo
mais amado terá sido.
 
A casa do pai Alfredo
era um templo musical,
toda noite havia toque
pela "FamíliaOrquestral",
e o menino Pizindim
achava aquilo legal.
 
Aos nove anos de idade
Pizindim já suspirava
de olho no bombardino,
e o cavaquinho arranhava,
enquanto a mana Lulunga
no piano se mostrava.
 
[...]
 
Todo mundo idolatrava
Pinxinguinha – obra-prima
Jusça, Cratô, Chagas Freitas,
Lacerda e Negrão de Lima.
Bittencourt, Arnaldo Guinle,
Sobra amiga a sobra rima.
 
Pixinguinha, o negro amado
morreu sem soltar um grito,
no Céu deve estar regendo
o "Carinhoso" - um bendito -
e talvez até causando
ciúme a São Benedito.
 
Encerro aqui meu trabalho
Dedico a Pixinguinha
Imortal como maestro
Glória que o Céu apadrinha
Artista que se fez santo
Rei do choro e da modinha
 
Deixa canções luminares
morre à luz dos altares
 
Até no fim foi batuta
Líder de notas e sons
Expiando como um justo
Nomeio das orações
Cantor de "Rosa" e "Lamento"
Autor de enorme talento
Rei do choro e das canções.

(ALENCAR, 1982, grifo nosso)

FONTES CONSULTADAS

ALENCAR, Edigar de. Claridade e sombra na música do povo. Rio de Janeiro: F. Alves; Brasília: INL, 1984.

ALENCAR, Edigar de. Vida e morte gloriosa do grande músico negro Pixinguinha. Juazeiro do Norte: Gráfica Mascote, 1982. 18 p.

ALENCAR, Edigar de. A modinha cearense. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1967. 

EDIGAR Alencar. In: DICIONÁRIO Cravo Albin da Música Popular Brasileira, [20–]. Disponível em: <https://bit.ly/2DQCsKb>.Acesso em: 21 ago. 2017.

HORTENCIO, Luciano. O cearense Edigar de Alencar e a entrevista histórica feita por Miguel Nirez. [S.l. : s.n.]. In: Jornal GGN. 3 set. 2014. Disponível em:<https://bit.ly/2DNBAGx>. Acesso em: 21 ago. 2017.

MONTEIRO, Bianca Mucha Cruz. Edigar de Alencar e o conhecimento histórico: a construção de uma memória sobre o samba, a vida e a obra de Sinhô. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 26., 2011, São Paulo. Anais… São Paulo: ANPUH, 2011.

MORAES, José Geraldo Vinci de. Edigar de Alencar e a escrita histórica da músicapopular. Cadernos de Pesquisa do CDHIS, v. 24, n. 2, 2011.

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