Poeta Silvino Pirauá de Lima – Síntese biográfica

Silvino Pirauá de Lima (1848 – 1913)

Silvino Pirauá de Lima, natural de Patos, no alto sertão da Paraíba, veio ao mundo em pleno século XIX, precisamente em 1848, antes da Lei Áurea e da suposta libertação da escravatura. Filho de lavradores e fugindo da seca, que devastava o alto sertão, em 1898 semeou seus versos e rimas nas terras pernambucanas cantando em ruas e praças. Fixou, a princípio, residência na cidade de Recife, capital do estado de Pernambuco.

Sua pouca condição financeira familiar não lhe deu a oportunidade de  frequentar os bancos escolares. O fato não o impediu de adquirir instrução, cultura e conhecimentos gerais que lhe renderam o  título,  por meio dos seus desafiantes,  de  O poeta enciclópedico.

Seguidor devotado de Francisco Romano Caluête, o Romano de Teixeira, acompanho-o nas suas perigrinações pelo Norte e Nordeste do país. E,  nesta região, tornou popular  o romance rimado. A descrição que  versou a respeito da flora e fauna amazonense ficou famosa. Porém, as descrições  perderam-se no  tempo.

Poeta, cordelista, cantador, violeiro, glosador, poeta popular repentista e como tal foi o primeiro a usar a sextilha no cordel, além de adotar a  categoria de estrofes, recursos novos na época para o gênero literário,  martelo agalopado que, de acordo com Aurélio e Houaiss (2010) respectivamente,  consiste em  “estrofe de seis pés decassílabos, de toada violenta, improvisada pelos cantadores sertanejos nos seus desafios”  ou “verso decassílabo com seis pés e rimas emparelhadas, que é cantado ou declamado por cantadores sertanejos; por vezes é improvisado; martelo de seis pés”.  É atribuida, ainda, a Silviano a criação de folhetos em parceria com Leandro Gomes Barrros.

Exerceu as atividades de poeta durante toda a vida, até que em 1913 foi acometido pela varíola levando-o a óbito. À época, vivia na cidade de Bezerros, Pernambuco.

 

 E tudo vem a ser nada

Tanta riqueza inserida

Por tanta gente orgulhosa,

Se julgando poderosa

No curto espaço da vida;

Oh! que idéia perdida.

Oh! que mente tão errada,

Dessa gente que enlevada

Nessa fingida grandeza

Junta montões de riqueza,

E tudo vem a ser nada.

 

Vemos um rico pomposo

Afetando gravidade,

Ali só reina bondade,

Nesse mortal orgulhoso,

Quer se fazer caprichoso,

Vive até de venta inchada,

Sua cara empantufada,

Só apresenta denodos

Tem esses inchaços todos

E tudo vem a ser nada.

 

Trabalha o homem, peleja

Mesmo a ponto de morrer,

É somente para ter,

Que ele tanto moureja,

Às vezes chove e troveja

E ele nessa enredada

À lama, ao sol, ao chuveiro,

Ajuntam tanto dinheiro,

E tudo vem a ser nada.

 

Temos palácios pomposos

Dos grandes imperadores,

Ministros e senadores,

E mais vultos majestosos;

Temos papas virtuosos

De uma vida regrada,

Temos também a espada

De soberbos generais,

Comandantes, Marechais,

E tudo vem a ser nada.

 

Honra, grandezas, brasões;

Entusiasmos, bondades;

São completas vaidades

São perfeitas ilusões,

Argumentos, discussões;

Algazarra, palavrada,

Sinagoga, caçoada,

Murmúrios, tricas, censura,

Muito tem a criatura,

E tudo vem a ser nada.

Vai tudo numa carreira

Envelhece a mocidade,

A avareza e a vaidade

É quer queira ou não queira;

Tudo se torna em poeira,

Cá nesta vida cansada

É uma lei promulgada

Que vem pela mão Divina,

O dever assim destina

E tudo vem a ser nada.

Formosuras e ilusões,

Passatempos e prazeres;

Mandatos, altos poderes;

De distintos figurões,

Cantilenas de salões;

E festa engalanada,

 

Virgem donzela enfeitada

No gozo de namorar,

Mancebos a flautear,

E tudo vem a ser nada.

Lascivas, depravações

Na imoral petulância,

São enlevos da infância,

São infames corrupções;

 

São fingidas seduções

Que faz a dama enfeitada

Influi-se a rapaziada

Velhos também de permeio

E vivem nesse paleio,

E tudo vem a ser nada.

Bailes, teatros, festins,

Comadre, drama, assembléia,

Clube, liceu, epopéia;

Todos aguardam seus fins,

Flores, relvas e jardins,

Festas com grande zoada,

Outeiro e Campinada

Frondam, copam e florescem,

Brilham, luzem, resplandecem

E tudo vem a ser nada.

O homem se julga honrado,

Repleto de garantia,

De brasões e fidalguia

É ele considerado,

 

Mas, quanto está enganado

Nesta ilusória pousada

Cá nesta breve morada.

Não vemos nada imortal

Temos um ponto final;

E tudo vem a ser nada.

Tudo quanto se divisa

Neste cruento torrão,

As árvores, a criação,

 

Tudo em fim se finaliza,

Até mesmo a própria brisa,

Soprando a terra escarpada,

Com força descompassada

Se transformando em tufão,

Deita pau rola no chão,

E tudo vem a ser nada.

 

Infindo só temos Deus,

Senhor de toda a grandeza,

Dos céus e da natureza,

De todos os mundos seus.

Do Brasil, dos Europeus,

Da terra toda englobada

Até mesmo da manada

Que vemos no arrebol:

Nuvem, lua, estrela e sol,

Tudo mais vem a ser nada.

 

 A história de Zezinho e Mariqunha

 Mariquinha, moça rica e muito linda,

 no palácio da nobreza era a flor

em seu jovem coração da mocidade,

 dedicava por Zezinho o seu amor

 

E os pais de Mariquinha não queriam,

 por Zezinho ser um pobre sem vintém

mas no mundo a maldade não consegue,

 separar dois corações que se quer bem.

 

Foi assim que o Zezinho foi-se embora,

 pelo mundo com a sorte foi lutar

na esperança de um dia enriquecer

e poder com Mariquinha se casar.

 

Nesse tempo que o Zezinho esteve ausente,

 oito anos sem jamais comunicar

com seu primo, homem idoso que ela odiava,

 obrigaram Mariquinha a se casar.

 

E depois de oito anos sem notícia,

 milionário o Zezinho regressou

pois foi mesmo justamente neste dia,

 com seu primo Mariquinha se casou.

Estava ainda com seu véu de casamento,

 Mariquinha com Zezinho encontrou

num abraço de paixão os dois morreram,

 e assim este romance terminou.

Nota: Há, além da de Pirauá, mais duas versões de Zezinho e Mariquinha. Uma de Artur da Silva Torres, publicada no Rio de Janeiro, na década de 1940. Outra mais recente, de Antônio Teodoro dos Santos, publicada pela Editora Prelúdio de São Paulo, uma década depois, este assina sob um de seus pseudônimos, Trovador Jaguarari. (http://marcohaurelio.blogspot.com.br/2013/03/ze-fortuna-e-silvino-piraua-cultura.html)

 

FONTES CONSULTADAS

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

WIKIPÉDIA. Silvino Pirauá de Lima. [S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Silvino_ Pirau%C3%A1_de_Lima>. Acesso em: 27 out. 2014.

RECANTO das letras. Textos. [S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/2205692>. Acesso em: 27 out. 2014.

CASA Rui Barbosa. Biografia.  [S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/SilvinoPiraua/silvinoPiraua_biografia.html>. Acesso em: 27 out. 2014.

ACORDA Cordel.  [S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http:acordacordel.blogspot.com.br/2013/01/obra-prima-de Silvino-pirau-de-lima.html>. Acesso em: 27 out. 2014.

ACORDA Cordel. Obra prima de Silvino Pirauá de Lima.  [S.l.: s.n., 20?]. Disponível em: <http://acordacordel.blogspot.com.br/2013/01/obra-prima-de-silvino-piraua-de-lima.html>. Acesso em: 27 out. 2014.

CARVALHO, Rodrigues de. Cancioneiro do norte. Peleja da Alma (do cantador paraibano Silvino Pirauá). Jangada Brasil, ano 3, n. 38, out. 2001. Disponível em: <http://www.jangadabrasil.com.br/outubro38/cn38100c.htm>. Acesso em: 27 out. 2014.

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