Poetisa Rosa Ramos Regis da Silva – Síntese biográfica

A cordelista paraibana Rosa Ramos Regis da Silva é filha do agricultor Fortunato Ramos Regis e da dona de casa Maria Joaquina de Farias. Rosa Regis, como é mais conhecida, nasceu no ano de 1949 no Sítio Jerimum, em Mamanguape (PB), atualmente Jacaraú (PB), e aos 17 anos (1966) fixou-se em Natal (RN) tendo antes residido em Montanhas (RN) por nove anos (REGIS, [2006?]; REGIS, [2007?]; SILVA, 2007).

Bacharel em Economia e Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Rosa Regis demonstrou sua verve poética ao cursar Filosofia, pois escrevia seus trabalhos acadêmicos em rima, até parte do trabalho de conclusão de curso e o discurso de formatura (REGIS, [2006?]; REGIS, [2007?]; SILVA, 2007).

Na contracapa do seu folheto O Verdadeiro Saber É Saber-se Ignorante, podemos ler detalhes de como se deu o início da sua produção cordelística:

Descobriu essa aptidão ao aposentar-se, quando passou a fazer caminhadas levando consigo um papel e uma caneta, escrevendo no meio da rua e chamando a atenção dos caminhantes. Naquele tempo, no ano de 1998, logo após aposentar-se, resolveu fazer um vestibular e, como não estava preparada para tal, fechou os olhos e marcou com indicador, no livreto do candidato, o curso para o qual concorreria a uma vaga. Deu filosofia. E este, foi o curso da sua vida. Foi ali que desenvolveu mais e mais sua aptidão poética, produzindo, com o incentivo de alguns professores, tais como o prof. Dr. Marcos Figueiredo da Silva e o prof. Dr. Oscar Frederico Bauchwitz, entre outros, que a coisa evoluiu. E aí fez grande parte dos seus trabalhos universitários em versos. Meio capengas, é certo! Mas, em versos. (REGIS, 2010)

Amante da poesia popular, a cordelista é membro de inúmeras instituições vinculadas à tradição da literatura poética oral e em folheto, como da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte (ATRN); Academia Norte-Rio-Grandense de Literatura de Cordel (ANLIC), da qual foi presidente no período de 2011-2014 e depois tesoureira; Associação Cultural Casa do Cordel (ACCC); Associação Estadual de Poetas Populares (AEPP); Associação Popular de Literatura de Cordel (APLC) da qual foi membro fundadora; Movimiento Poetas Del Mundo; Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do Rio Grande do Norte (SPVA/RN); União Brasileira de Escritores no Rio Grande do Norte (UBE/RN); e União dos Cordelistas do Rio Grande do Norte (UNICODERN) (REGIS, [2006?]; REGIS, [2007?]; SILVA, 2007).

O que apresentar agora, então? Em primeiro lugar, antes do rol de suas obras e prêmios, como ressalva à produção poética e participação de Rosa Régis na seara cultural, transcrevemos trecho inicial e final de O Distino de Jusé: fio de dona Sinhá:

(inselença)
Meu povo, me dê licença
Prumode a rede passá!
Nói vamo interrá Jusé
Qui já cumeça a cherá!
Morreu de morte matada:
Pra mai de doze facada.
Lhe matáro pra robá.
 
Assim cumeça a história,
Contada de trái pra diante:
Um história sem gulória
D'um matuto arritirante
Qui partiu da sua terra,
Do sertão no pé da serra,
Puresse mundão avante.
 
É a história de Jusé
Fio de dona Sinhá.
Quidexô a sua terra
Poi já num tinha o qui dá
Prumode a sêeeca, doutô!
E pra capitá se mandô,
Buscando in que trabaiá.
 
Um dia, de manhãzinha,
S'elevanta distimido,
Dizendo a mué: - Chiquinha,
Já tô mermo arrizuvido!
Tu arrebanha os minino
Qui agora o nosso distino
É o qui Deus fôsiivido.
 
Tem um povo arrabanhando
Gente pra ir trabaiá.
Mai só leva sem muié!
Eu num quero ti dexá.
Pra donde eu fô tu vai!
Nossos fio vão atrai.
E Deus vai nos ajudá.
 
A muié, obidiente
Quiera, já começô
A arrumá os mulambo
Cuma o marido mandô:
Roupa véia, arremendada;
Carça cum perna rasgada;
Pedaço de cubertô.
 
Arrebanhô os minino
Quitava tudo ispiado:
Maigarida, Sivirino,
Zabé, Antonha, Conrado.
E mais argum, que agora
No momento, nessa hora,
Eu num mermo alembrado.
 
Zé, cuma inxada no ombro,
Onde vai dipindurado
Um cabacinho cum água
E um matuião de lado
Cum farinha de mandioca
Beiju seco, tapioca
E um caiquinho assado.
 
[...]
 
Morreu o Zé de Chiquinha!
Ninguém sabe quem matô.
Arguém diz qui foi um fio
Dele mermo, quiindoidô.
E ôtos dize: - Foi ladrão!
Só se sabe qui o sertão,
cum tristeza, meu patrão,
A sua morte chorô.
[REGIS, [2007?])

Rosa Ramos Regis da Silva é aposentada da Companhia Energética do Rio Grande do Norte (COSERN) e aos sessenta anos (2009) foi aprovada em concurso público para a Secretaria de Estado da Educação e da Cultura (SEEC/RN) para lecionar filosofia no ensino médio (SILVA, 2007).

A promoção à educação também está presente na sua produção artística, como vemos nas explicações contidas no folheto O Cordel da Prevenção: a AIDS é incurável, devemos nos prevenir:

Pode-se encontrar no sangue;
Na secreção vaginal;
No esperma ou mesmo no leite,
Que é alimento maternal
Da mãe que, infectada
Pelo tal vírus, coitada,
A transmissão é fetal.
 
Porém o contágio pode
Demorar a aparecer,
Lavando mais de dez anos
Para que se possa ver
Que se possui a doença.
E ao descobrir-se, é imensa
A tristeza. E faz sofrer.
 
Quem se droga e compartilha
A seringa está, também,
Arriscando a própria vida
E a vida de mais alguém.
A AIDS e a droga, juntos,
São: prenúncio de defuntos.
Pois os dois, morte contêm.
 
Ao desenvolver a AIDS,
O HIV, então,
Começa, pois, um processo
Que leva à destruição
Dos glóbulos bancos, causando,
No ser que o está portando,
Uma grande desproteção.
[...]
(REGIS, 2008)

Sua obra reconhecida já recebeu muitos prêmios, sendo em primeiro lugar dos cordéis em décima ou sextilhas: 2008 – XIV Festival Sertanejo de Poesia (FESERP) da Acauã Produções Culturais (APC), recebendo o Prêmio Augusto dos Anjos, na cidade de Aparecida (PB) com o cordel em décima: Lampião Ainda É Vivo no Coração do Nordeste; 2009 – III Prêmio COSERN de Literatura de Cordel, em Mossoró (RN) com Eu Venho Aqui em Defesa da Sustentabilidade, e I PRÊMIO SINDSAÚDE/RN, com o cordel O SINDSAÚDE é um sindicato de garra, ambos escritos em sextilha;2010 – II Prêmio Literatura de Cordel da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, em Caruaru (PE), com a décima: A Feira de Caruaru É Patrimônio do Povo (REGIS, [2006?]; SILVA, 2007). Rosa Régis alcançou o oitavo lugar no X e XIV FESERP com UM Deus Nascido da Dor e O Ipê Roxo, respectivamente (REGIS, [2006?]; SILVA, 2007).

A partir do rol de premiação da ilustre cordelista, gostaríamos de lembrar que ela também tem sonetos premiados, muitos livros e folhetos (poesias) publicados, participação em diversificados eventos culturais (festivais, concursos literários, feiras e outros). Apresentamos, portanto, trecho do cordel que encarna seu saber da história da filosofia, intitulado Filosofia em Cordel (aplicada à Educação Fundamental):

Nos disse o mestre dos mestres
do pensar, que foi Platão,
que as coisas só iam entrar
nos eixos neste mundão
quando este fosse mandado,
dirigido, governado,
por filósofos. E então?!...
 
[…]
 
TALES DE MILETO
 
Tales nasceu em Mileto.
Foi um grande pensador!
Sendo ele o primeiro Sábio
Do mundo. Um conhecedor.
Foi político, geômetra,
e astrônomo. Com louvor.
 
[…]
 
ANAXIMANDRO
 
Falemos de Anaximandro,
que veio logo em seguida.
Este era da mesma linha
de Tales, pois que a vida,
pra ele, vinha da água
de uma forma definida:
 
[…]
 
PITÁGORAS
 
Combinação curiosa
de místico e cientista,
de matemático, geômetra,
como verdadeiro artista
ele manuseia os números
como um hábil equilibrista.
 
[…]
 
HERÁCLITO
(Não se entra no mesmo
rio duas vezes)
 
Quinhentos anos a.C.
Heráclito já afirmava
que tudo estava em fluxo.
Mas também acreditava
em uma justiça cósmica
que o mundo equilibrava.
 
[…]
 
EMPÉDOCLES
 
Empédocles de Agrimento
cria uma clepsidra
em metal. Descobre o ar.
E diz que: De Deus duvida.
Julgando-se o próprio Deus!
O dono da sua vida.
 
[…]
 
OS ATOMISTAS
 
Falando dos atomistas,
Quatrocentos e Vinte a.C.
O mundo, aí, é formado
por particulazinhas que
unem-se, formando um todo.
Seria loucura? Engodo?
Tente descobrir você!
 
LEUCIPO E DEMÓCRITO
 
De Parmênides: a idéia
de partículas essenciais,
de Heráclito: o movimento
que não termina jamais,
herdam, e propõem: átomos
indivisíveis. E mais:
 
[…]
 
OS SOFISTAS(Grandes mudanças)
 
Enquanto que para os gregos
o interesse maior era
a unidade e a diferença,
o Universo... quem dera!
As grandes questões, agora?!
Isso era apenas quimera.
 
[…]
 
PROTÁGORAS
 
Segundo ele, o homem
era, de tudo, a medida.
E a sua praticidade
não lhe deixava saída:
conhecer a realidade
era coisa descabida.
 
[…]
 
TRASÍMACO
 
Para Trasímaco, a Justiça
era a vantagem de quem
tem o poder, é mais forte.
E, desta forma, ele vem,
de uma forma grosseira,
“trocar” o mal pelo bem.
 
Fim do folheto I
 
 (REGIS, [2007]; REGIS, 2008)

FONTES CONSULTADAS

REGIS, Rosa. Filosofia em cordel. [Natal : s.n., 2005]. In: Recanto das Letras. [2007]. Disponível em: <http://www.recantodasletras.com.br/cordel/579860&gt;. Acesso em: 28 out. 2017.

REGIS, Rosa. Filosofia em cordel. [Natal : s.n., 2005]. In: Rosado Cordel. 6 mar. 2008. Disponível em: <http://rosadocordel.blogspot.com.br/&gt;. Acesso em: 26 out. 2017.

REGIS, Rosa. O cordel da prevenção: a AIDS é incurável, devemos nos prevenir. 2008.

RÉGIS, Rosa. O distino de Jusé: fio de dona Sinhá. Natal: Casa co Cordel, [2007?].

REGIS, Rosa. O verdadeiro saber é saber-se ignorante. Natal: [S.n.], 2010.

REGIS, Rosa. Perfil. [S.l.: s.n.]. In: Recanto das Letras. [2006?]. Disponível em: <http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=5757&gt;. Acesso em: 26 out. 2017.

SILVA, Rosa Regis da Silva. Perfil. [S.l : s.n.]. In: Rosa Regis Poetisa. 21 jul. 2007. Disponível em: <http://www.rosaregispoetisa.net/perfil.php&gt;. Acesso em: 28 out. 2017.

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