Poeta Francisco Nunes de Oliveira – Síntese biográfica

Francisco Nunes de Oliveira foi um repentista alagoano que galgou significativo reconhecimento literário. Costumava se autodenominar de Francisco Nunes Brasil, por considerar um nome poético para um repentista, mas a sua existência modesta o reduziu para Chico Nunes e, mais tarde, em autoelogio adotou como codinome Rouxinol de Palmeira (LAGO, 1975). Muito embora Lima (2016), ao citar Luiz B. Torres, afirma que Chico Nunes gostava de se apresentar aos desconhecidos adotando outros codinomes como: “Nabucodonosor Aciobá Brasileiro da Costa Ouricuri Bacamarte da Silva Arranca Toco, Rouxinol da Palmeira e exemplo pra cabra ruim”.

Francisco Nunes de Oliveira nasceu em Palmeira dos Índios no Estado de Alagoas em 04 de maio de 1904, na Rua de Cima, posteriormente denominada de Rua Costa Rego. Lima (2016) historia que Chico Nunes nasceu na Rua Pernambuco Novo ou Pernambuquinho e completa:

[…] Era uma Rua de mulherio, de mistura de randevus e cabarés, aonde a promiscuidade ia até as últimas consequências. Mas, apesar da imundice ali reinante, era a mais procurada pelos homens e a noite se transformava, no logradouro mais animado da pequena Palmeira dos Índios.

Filho de um mestre de obras e uma costureira, José Nunes da Costa e Francisca Nunes de Oliveira, falecidos, respectivamente em 1942 e 1947. Após a morte dos pais, Chico Nunes foi morar com o amigo barbeiro João Vieira. Posteriormente, recebeu uma casa do tio Gaspar, na Rua Pernambuco Novo, nº 35, onde residiu até morrer (LAGO, 1975).

Foi o quinto filho de uma prole de doze, dos quais apenas sete sobreviveram, faleceu aos 48 anos, no dia 21 de fevereiro de 1953, com nefrite crônica ou cirrose hepática. Por cinco anos e nove meses, Chico viveu com Maria Tercila, com quem não casou no civil ou religioso e chamava carinhosamente de Guriatã. Eles tinham se conhecido em 14 maio de 1947 (LAGO, 1975; LIMA, 2016).

Com vida difícil e frustrada, tornou-se mordaz e afirmava: “Se o mundo fosse bom, o dono morava nele” (LAGO, 1975, p. 23). Seus versos transmitem a desilusão com a vida:

A vileza do destino
Espedaçou meu futuro,
O meu viver é obscuro
Desde o tempo de menino.
Hoje sou um peregrino,
Não sei o que é riqueza,
Bruxuleia a luz acesa,
Perdi a perseverança ...
E o retrato de minha infância
Está na minha pobreza.
 
Na terra dos marechais,
Sem ter quem me queira bem,
Ó morte, por que não vens
Tirar meus dias finais?
Vivo gemendo meus ais,
Só sei o que é aspereza,
Não apresento nobreza,
Sou igual a uma balança ...
E o retrato da minha infância
Está na minha pobreza.
(LAGO, 1975, p. 24)

Em Chico Nunes das Alagoas, Lago (1975) realiza um “levantamento poético-existencial […] sobre o que fez e rimou um repentista despreocupado de tipografia ou sequer cadernos de rascunhos”.

O poeta não tinha interesse em escrever ou publicar os seus repentes, os quais muitas vezes causavam verdadeira admiração. Até certa ocasião, eu [José Nunes da Costa, o Cazuza, primo de Chico Nunes] o animei para que mandasse alguém copiar (o que fazia), a fim de publicar um pequeno folheto. Mas ele não levou a sério a minha idéia.

Chico Nunes era muito apegado a mim [Valdemar de Sousa Lima]. E quantas vezes lhe pedi que me trouxesse os seus versos copiados, pois desejava formar um caderno, como lembrança. Mas o amarelo, irônico e extrovertido como o diabo, não ligava para essa história de escrever. Queria era encher a barriga de cachaça e lorotar, soltando a coisa por aí. Quem quisesse que pegasse. (LAGO, 1975, p. 47)

Na obra, o autor busca apresentar Francisco Nunes de Oliveira por meio das lembranças de seu amigo Zé do Cavaquinho (José Rodrigues de Moura), proprietário do boteco Trovador Berrante, frequentado por Lago durante as filmagens de São Bernardo, em Viçosa (AL).  Ao biografar o Rouxinol de Palmeira, o autor esclarece:

A obra dessa gente não pode ser analisada como dos poetas que a posteridade reúne em Obras Completas e cita em Ontologias. Esses podem deter-se na ideia que ocorre, refugá-la ou aprofundar-lhe a essência. E elaborar o verso, trabalhar a frase, comparar a música das palavras para escolher a melhor, aquela que se encaixa no todo sem deixar espaço para outra. E reveem, expurgam, enxugam, refazem. Não há o tempo como um elemento implacável a exigir a conclusão do poema. O importante é que a obra saia perfeita.

O repentista, ao contrário, rima ao impacto do fato de momento, da frase que espicaça. Produz cantando ou falando, sem vagares para rever. Uma multidão espera o resultado da peleja. Em seu íntimo palpita o orgulho de uma condição que lhe deu superioridade ambiental, como diz Câmara Cascudo em Vaqueiros e cantadores. […] Vacilar será perder o que custou anos para ser alcançado: o respeito de toda uma cidade, zona ou sertão. […] (LAGO, 1975, p. 11-12)

O trovador palmeirense não deixou uma única linha publicada, mas é a ele atribuída a autoria da décima biográfica Velho Tamarineiro:

Fui visitar a morada
Onde nasci e me criei,
Não achei casa nem nada
Das coisas que lá deixei.
Só, lá no fim do terreiro,
Um velho tamarineiro
Que meus pais queriam bem.
Enquanto os donos viveram,
Viveu. Quando eles morreram
A árvore morreu também.
(LAGO, 1975, p. 13)

Aos 4 anos, Francisco Nunes de Oliveira apresentou desejo de frequentar a escola e o pai providenciou um bauzinho de lata que servia para levar objetos escolares como caderno e cartilha. Uma manhã, indo para escola, encontrou dois colegas mais velhos, Evangelista (Vanja) e Raul, e o contentamento por se sentir igual aos amigos levou a falar suas primeiras rimas:

Olha o banha e o baranha,
Olha o Vanja e o Aú
Eu também vou pra escola
Carregando meu baú.
(LAGO, 1975, p. 25)

Lago (1975) cita Bezerra e Silva, amigo de infância de Chico Nunes, que em seu livro Terra dos Xucurus, ratifica as informações de que muito pequeno o repentista glosava. Também avalia que o repentista não desejava estudar por ter frequentado a escola por um período de um ano, porém D. Luísa, irmã do poeta, explica que por ter uma alta miopia, consequência do sarampo, Chico deixou a escola por ter sido dispensado pela professora Amélia Bonfim, somado às dificuldades do ensino público da época e à impossibilidade de acesso ao ensino particular. Sem concluir o curso primário, falava correto e costumava ler dicionários e usando expressões pouco comuns embaraçava os adversários de desafio.

De acordo com as informações da sobrinha Beby Nunes, ele foi um homem de muitos amores, como Honorina e Heronita, mas que não se concretizaram por ser boêmio e não representar um bom partido. Lago (1975) também cita Anália e afirma que dentre os guardados de Maria Tercila, derradeira companheira de Chico Nunes, foi encontrada a glosa Saudades de Honorina, com a seguinte nota: “Improvisos do poeta Francisco Nunes Brasil: Dedicados à virgem dos meus sonhos, Honorina, em 18 de março de 1938 – Palmeira dos Índios” (LAGO, 1975, p. 37).

Faz hoje um mês e dois dias
Que você se foi embora,
Meu coração ainda chora
Cheio de melancolias.
Na maior das agonias
Eu fiquei na quarta-feira,
Solucei a tarde inteira,
Dando suspiros e ais …
De triste não canta mais
O Rouxinol da Palmeira.
 
Você diz que não há verdade
No coração de um cantor,
Mas se não existisse amor
Não existia amizade,
Digo com sinceridade
A ti, morena faceira:
A saudade é a companheira
Da esperança que passeia …
Não canta mais nem gorjeia
O Rouxinol da Palmeira.
[…]
(LAGO, 1975, p. 37-38)

Aventura amorosa de um jovem de 18 anos com Eronildes, garota de programa, obrigou-o a tomar uma injeção de vitamina B1 para doença sexualmente transmissível, aplicada no braço esquerdo pelo farmacêutico Valfrido Góis que era padrinho de seu irmão. Como consequência da aplicação da injeção, “o braço deu de secar, secar, mirrando completamente” (LAGO, 1975, p. 42). Chico veio a dar um tiro no próprio pulso da mão deformada, em 1924, e assim poetizou o momento:

Não há dor que eu não aguente,
Que a dor em mim já fez calo,
Mas a desgraça que falo
É desgraça diferente.
Perdi a mão fazendo repente
Na pensão do Zé Narciso.
Isso me deu prejuízo
E me deixou arrasado.
Até o governo do Estado
Mostrou preocupação
Ao ver perder sua mão
O Chico Nunes falado.
(LAGO, 1975, p. 42)

Lago (1975) aponta o descaso dos pesquisadores de poesia popular como uma das causas do desgosto e revolta de Chico Nunes, suposição confirmada em correspondências trocadas com os folcloristas José Aloísio Brandão Vilela, Theotônio Vilela Brandão e José Veríssimo de Melo. Aponta ainda que apenas Neri Camelo, em suas obras Alma do Nordeste e Através do Sertão, “o citou e situou […] No primeiro desses livros, o referido autor não faz por menos em sua admiração: Palmeira dos Índios é o berço de um dos maiores improvisadores do nordeste – Chico Nunes”, além de enviar um exemplar com foto dedicada ao glosador (LAGO, 1975, p. 45).

O homem incrédulo movia o poeta com suas glosas, como a Terra, cinza e nada mais, remetida a Aloísio Vilela em 1937:

O ouro com seu brasão,
Esse herói entre os humanos,
Vestiu dos mais finos panos
O grande rei Salomão,
Mas o grande rei de então,
Que brilhou entre os cristais,
Numa das horas fatais
Foi levado à terra fria.
Tornou-se no mesmo dia
Terra, cinza e nada mais.
 
Os grandes imperadores,
Os presidentes e papas,
Dizem os livros e mapas
Que lamentavam horrores …
Poetas de altos valores,
Por decretos divinais
Ou por sentenças legais
Deixaram de versejar.
Todos foram se tornar
Terra, cinza e nada mais.
 
Bem vimos Pedro Segundo,
Imperador do Brasil,
Ganhou loas mais de mil
Neste pedaço de mundo.
Mas, por mistério profundo,
Sentiu dores sem iguais,
Seguiu as leis dos mortais,
Deixando as glórias do trono.
Tornou-se, depois do sono,
Terra, cinza e nada mais.
 
O marechal Floriano
Peixoto,homem ilustrado,
Foi um brasileiro honrado
Do Estado Alagoano.
Como não foi desumano
Teve épocas colossais,
Foi o rei dos marechais
De ferro, disposto e forte.
Mas virou, depois da morte,
Terra, cinza e nada mais.
 
O grande Dr. Rui Barbosa,
Muito sábio e competente,
No mundo viveu decente,
Sua estrela foi luminosa.
Sua voz era poderosa,
Abalando até os jornais.
Preparava os editais
Com acerto e muita ciência …
Tornou-se após a existência
Terra, cinza e nada mais.
 
Estou muito arrependido
Com meu triste nascimento,
Neste mundo de tormento
Antes não fosse nascido.
De que serve ter vivido
Como meus formosos sinais
E ter na lira os ideais?
Vou deixar de ser poeta,
Pois terei de ser, na certa,
Terra, cinza e nada mais.
 
Estou triste e quase morto,
Passo a vida a meditar …
Me vejo neste lugar
Sem prazer e sem conforto.
De reumatismo ando torto,
Com dores descomunais.
Dando suspiros e ais
De tudo perdi a fé …
Breve Chico Nunes é
Terra, cinza e nada mais.
(LAGO, 1975, p. 56-58)

O repentista ganhou um carimbo, presente de José Branco, para identificar suas glosas (LAGO, 1975, p. 29).

FONTES CONSULTADAS

LIMA, Marcos. Chico Nunes das Alagoas, o Poeta esquecido. [S.l. :s.n]. In: Na sombra do juazeiro. 13 nov. 2016. Disponível em: <http://nasombradojuazeiro.com.br/2016/11/13/chico-nunes-das-alagoas-o-poeta-esquecido/&gt;. Acesso em: 13 set. 2017.

COMO MÁRIO LAGO descobriu Chico Nunes das Alagoas.[S.l. : s.n.]. In: História de Alagoas. 27 maio 2015. Disponível em: <http://www.historiadealagoas.com.br/mario-lago-descobre-chico-nunes-das-alagoas.html&gt;. Acesso em: 13 set. 2017.

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